Pesquisadores identificaram aumento expressivo das temperaturas na capital paulista e alertam para impactos das ondas de calor nas áreas urbanas

Letícia Sales Publicado em 16/05/2026, às 20h31
A cidade de São Paulo registrou um aumento de temperatura muito acima da média global nos últimos 125 anos, segundo estudo apresentado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa aponta que o avanço das ilhas de calor urbanas tem intensificado os efeitos das mudanças climáticas na capital paulista.
Os dados mostram que a temperatura máxima diária da cidade aumentou cerca de 2,4 °C desde o início do século XX. Já as mínimas registraram crescimento ainda maior: 2,8 °C no mesmo período. Em comparação, a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2 °C desde 1900, segundo estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O estudo foi apresentado pelo professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), durante encontro promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica.
Segundo os pesquisadores, a principal explicação para o aquecimento acelerado está no crescimento das ilhas de calor urbanas — fenômeno causado pela substituição da vegetação por asfalto, concreto e grandes estruturas urbanas, que absorvem e acumulam mais calor.
Áreas urbanas chegam a 60 °C no verão
Em uma nova etapa da pesquisa, cientistas analisaram 70 cidades paulistas utilizando imagens de satélite do programa Landsat, da agência espacial norte-americana NASA.
Os resultados revelaram que, durante o verão, áreas urbanizadas mais críticas da Grande São Paulo chegaram a registrar temperaturas de superfície próximas de 60 °C — índice normalmente associado a galpões industriais.
Já regiões com maior cobertura vegetal e presença de corpos d’água apresentaram temperaturas significativamente menores, próximas de 25 °C.
“Ao olhar a distribuição das ilhas de calor ao longo do Estado de São Paulo, notamos que há uma grande concentração na região nordeste, onde também há o cultivo em larga escala de cana-de-açúcar e, pontualmente, em algumas cidades, como as da Região Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes são as com maior densidade populacional. Mas o fenômeno não se restringiu às grandes cidades: as pequenas também apresentam ilhas de calor de forma consolidada”, afirmou Humberto Ribeiro da Rocha.
Os pesquisadores também identificaram diferenças térmicas entre 7 °C e 12 °C entre áreas mais quentes e regiões arborizadas durante o verão.
Ondas de calor elevam sensação térmica nas casas
Outro braço do estudo passou a monitorar os efeitos das ondas de calor na Região Metropolitana de São Paulo utilizando estações meteorológicas instaladas em ruas, residências e escolas.
As análises mostraram que, nos últimos 15 anos, as tardes durante períodos de calor extremo têm registrado temperaturas entre 30 °C e 34 °C em diversos pontos da região metropolitana. Durante a noite, por volta das 22h, os termômetros ainda marcam cerca de 28 °C.
Segundo os pesquisadores, a sequência de noites muito quentes agrava o desconforto térmico dentro das residências e dificulta o resfriamento natural dos ambientes.
Vegetação ajuda a reduzir temperatura
Os cientistas defendem a ampliação de soluções baseadas na natureza para reduzir os impactos do calor extremo nas cidades.
De acordo com o estudo, áreas arborizadas foram capazes de reduzir em até 7 °C a temperatura do ar no nível das ruas em comparação com regiões altamente urbanizadas.
Os pesquisadores classificaram o fenômeno como “efeito oásis”, causado pelo sombreamento e pela presença de vegetação.
“O Brasil tem condições de desenvolver estratégias urbanas mais sustentáveis para enfrentar o avanço das mudanças climáticas e proteger a população dos efeitos extremos do calor”, destacam os pesquisadores.
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