O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Júnior, preso sob suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, já havia sido denunciado pela ex-companheira por perseguição e perturbação, em um caso registrado em 2010

William Oliveira Publicado em 01/04/2026, às 07h42
Uma denúncia registrada em 2010 trouxe novos elementos sobre o histórico do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Júnior, preso sob suspeita de matar a própria esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, na cidade de São Paulo.
À época, uma dentista procurou a Polícia Civil em Taubaté, no interior paulista, para denunciar o então ex-marido por perturbação. O boletim de ocorrência foi registrado em 18 de janeiro de 2010, após o fim do relacionamento entre os dois.
De acordo com o relato, o oficial teria descumprido decisões judiciais relacionadas às visitas à filha do casal, comparecendo em dias e horários não autorizados. A ex-companheira também afirmou que recebia ligações frequentes, em diferentes horários, o que a levou a trocar de número telefônico diversas vezes.
Ainda segundo o depoimento, o policial utilizava a justificativa de procurar a filha para tentar se aproximar da ex-mulher, mesmo quando a criança não estava sob seus cuidados. Diante da situação, a mulher solicitou à Justiça uma medida de distanciamento, alegando o não cumprimento por parte do militar. O caso foi encaminhado à Vara da Família e das Sucessões.

O tenente-coronel foi preso no dia 18 de fevereiro, suspeito de ter atirado contra a esposa no apartamento onde o casal vivia, no bairro do Brás, na capital paulista. A vítima, a soldado Gisele Alves Santana, morreu após ser atingida por um disparo na cabeça.
O militar nega o crime e sustenta, por meio de sua defesa, que a esposa teria tirado a própria vida após o término do relacionamento. No entanto, a versão é contestada por elementos da investigação, incluindo mensagens recuperadas do celular da vítima pela Polícia Científica.
Gisele morava no local com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, que relatou à polícia que estava tomando banho quando ouviu um disparo. Segundo o depoimento dele, o casal havia discutido momentos antes. Após escutar o barulho, ele disse que saiu do banheiro e encontrou a esposa ferida.
Um dos principais pontos da investigação envolve a perícia no celular da vítima. Os exames indicam que o aparelho foi manuseado e desbloqueado minutos após o disparo.
Embora o oficial tenha acionado o 190 às 7h54, registros apontam que o celular de Gisele foi desbloqueado posteriormente, sendo o último acesso às 7h58 — fato que levanta suspeitas sobre a dinâmica do crime.
Além disso, a polícia identificou que Geraldo Neto apagou o histórico de conversas em seu próprio celular, numa tentativa de sustentar a narrativa de que ele teria tomado a iniciativa da separação.
No entanto, mensagens recuperadas no aparelho da vítima indicam o contrário. Na noite anterior à morte, Gisele manifestou claramente a intenção de se divorciar:
“Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão”, escreveu às 22h59.
Minutos depois, completou: “Vejo que se arrependeu do casamento, eu também (...) Pode entrar com o pedido [de divórcio] essa semana.”
Depoimentos de colegas de farda traçam um perfil controlador e agressivo do oficial. Segundo testemunhas, ele já teria agredido Gisele fisicamente dentro do ambiente de trabalho, incluindo episódios em que a pressionou contra a parede e a segurou pelo pescoço.
Ainda conforme os relatos, a soldado — descrita como extrovertida — apresentava comportamento retraído e tenso na presença do marido.
O histórico de instabilidade do tenente-coronel também teria motivado um afastamento temporário do quartel antes mesmo do casamento, após uma discussão acalorada com a vítima.
O Ministério Público aponta ainda que, após o disparo, o oficial teria alterado a cena do crime.
Imagens de câmeras corporais de policiais que atenderam à ocorrência mostram um confronto entre um cabo — que tentava preservar o local — e o tenente-coronel, que insistia em circular pelo apartamento, tomar banho e remover objetos.
Segundo a acusação, o militar teria se valido da própria patente para interferir no trabalho da perícia.
Durante audiência de custódia, Geraldo Neto reiterou que a morte da esposa teria sido um suicídio.
“Ela se suicidou com minha arma no meu apartamento”, declarou.
A defesa, representada pelo escritório Malavasi Sociedade de Advogados, contesta a competência da Justiça comum para julgar o caso e afirma que o oficial sempre colaborou com as investigações.
Em nota, os advogados criticam a divulgação de informações que consideram descontextualizadas e alegam que a prisão é ilegal, por ter sido decretada por autoridade incompetente.
O processo deve ser encaminhado ao Tribunal do Júri, já que o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida.
Com a nova legislação em vigor desde 2024, que tornou o feminicídio um crime autônomo, a pena pode variar entre 20 e 40 anos de prisão.
Este é o primeiro caso, desde 2015, de um oficial de alta patente da Polícia Militar de São Paulo preso sob acusação de feminicídio.
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