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Por que a despedida de Keila Ferreira virou um evento político?

De Lula a Bolsonaro, a presença de líderes políticos no velório reflete a disputa pelo eleitorado feminino

A morte de Keila Ferreira destaca sua importância no meio evangélico e seu impacto nas eleições de 2026. - Imagem: Reprodução | YouTube
A morte de Keila Ferreira destaca sua importância no meio evangélico e seu impacto nas eleições de 2026. - Imagem: Reprodução | YouTube

por Marina Milani

Publicado em 05/02/2025, às 09h41


O falecimento da bispa Keila Ferreira, ocorrido no último sábado (1º), transformou a sede da Igreja Assembleia de Deus do Brás, localizada na região central da capital paulista, em um ponto de encontro para diversas figuras proeminentes da política nacional.

No velório, que teve lugar na noite de segunda-feira (3 de fevereiro), estiveram presentes autoridades como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Cláudio Castro (PL), a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), além do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e o secretário estadual de Governo, Gilberto Kassab (PSD). A cerimônia também contou com a presença de mais de dez deputados e ex-parlamentares, entre eles Eduardo Cunha.

Embora o evento tenha sido dominado por representantes da direita, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi um dos primeiros a expressar suas condolências pela morte da bispa, divulgando uma nota oficial no dia seguinte ao falecimento. A ampla repercussão do evento no cenário político evidencia as intensas disputas que se desenharão entre os eleitores evangélicos nas próximas eleições de 2026.

Apesar de seu nome ter se tornado conhecido fora do universo evangélico somente após sua morte, Keila Ferreira era uma figura icônica dentro da música gospel. Ela liderava a Confederação de Irmãs Beneficentes Evangélicas Nacional e era reconhecida por frequentadoras da Assembleia de Deus de Madureira como alguém que tinha forte influência sobre as mulheres nas igrejas.

A influência de Keila ajuda a entender o interesse político em estabelecer laços com sua figura. O eleitorado feminino tem sido um terreno fértil para disputas entre a esquerda e a direita, sendo que esta última enfrenta dificuldades para conquistar esse público, apesar do apoio majoritário entre os evangélicos.

Mais do que apenas prestar homenagens, a presença dos políticos no velório sinaliza apoio ao bispo Samuel Ferreira, seu esposo por 34 anos. Tal apoio pode facilitar o acesso ao Ministério Madureira, uma das maiores ramificações da Assembleia de Deus, que representa cerca de 30% dos evangélicos brasileiros, segundo dados recentes.

Perfil de Samuel Ferreira

Samuel Ferreira é filho do bispo e ex-deputado federal Manoel Ferreira e herdeiro da liderança na Assembleia de Deus do Brás. Tanto ele quanto seu pai são figuras notórias no ambiente político nacional.

Manoel já ofereceu apoio ao ex-presidente Michel Temer (MDB) durante seu mandato, enquanto Samuel foi mencionado em investigações da Operação Lava Jato, acusado de lavagem de dinheiro para Eduardo Cunha, ex-deputado federal e então presidente da Câmara.

No ano de 2022, Samuel liderou uma agenda eleitoral para Jair Bolsonaro em sua igreja, onde o candidato à reeleição foi apresentado aos fiéis. O evento ficou marcado pela hostilidade demonstrada em relação à imprensa.

A conexão com o bolsonarismo é relativamente nova na família Ferreira. Durante a crise que culminou no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, Samuel chegou a ser considerado pelo PT como um intermediário para dialogar com Eduardo Cunha. Naquele período, seu pai Manoel e outras lideranças evangélicas haviam manifestado apoio à reeleição da petista em 2014.

A influência do Ministério Madureira

Conquistar a simpatia da família Ferreira significa garantir votos dentro do Ministério Madureira. Este ministério é atualmente liderado pelo irmão de Samuel, Bispo Abner de Cássio Ferreira, e abrange diversas filiais, incluindo a sede localizada na Igreja do Brás, onde ocorreu o velório de Keila.

A influência deste ministério é notável no contexto pentecostal brasileiro devido à sua liderança na Convenção Geral das Assembleias de Deus, presidida atualmente por Samuel Ferreira. Essa convenção congrega diferentes ramificações das Assembleias de Deus – um termo utilizado para designar igrejas independentes entre si – e tem promovido um projeto oficial voltado ao lançamento de candidaturas eleitorais desde os anos 2000. Entre seus membros mais conhecidos está o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que também compareceu ao velório.


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