Entre suspeitas de fraude bilionária e espionagem cibernética, PF amplia investigação sobre a atuação do dono do Banco Master.

Ana Beatriz Publicado em 17/12/2025, às 15h08
A Polícia Federal apura indícios de que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria recorrido a hackers para invadir sistemas de informática e obter documentos protegidos por sigilo, além de atuar para manipular a visibilidade de conteúdos na internet. As suspeitas ganharam novo fôlego após a reanálise do celular apreendido com Vorcaro, preso em novembro quando tentava deixar o país, segundo a PF.
Os dados extraídos do aparelho revelaram trechos de investigações sigilosas sobre o próprio Banco Master — material que, de acordo com os investigadores, foi acessado antes de qualquer liberação formal à defesa. A origem desses documentos passou a ser rastreada a partir de conversas entre Vorcaro e um funcionário, nas quais surgem indícios de que o banqueiro teria solicitado a contratação de hackers para acessar sistemas e obter informações estratégicas.
Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirma não ter conhecimento das informações mencionadas pela Polícia Federal.
Prisão, celular e a engrenagem da investigação
O telefone de Vorcaro foi apreendido em 17 de novembro, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando ele embarcava para uma viagem internacional. Para os investigadores, o contexto da prisão reforça a suspeita de tentativa de fuga, diante da possibilidade iminente de medidas judiciais mais duras.
No dia seguinte à detenção, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, com novas prisões e mandados de busca e apreensão. O foco central da operação é a suspeita de irregularidades na venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB).
A investigação, no entanto, ficou temporariamente paralisada após o caso ser levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ministro Dias Toffoli, em razão da apreensão de documentos ligados a uma transação imobiliária entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). Somente na última segunda-feira, dia 15, Toffoli autorizou a retomada das apurações, incluindo novos depoimentos e diligências.
Manipulação digital e guerra de reputações
Além da busca por documentos sigilosos, a PF investiga se a suposta atuação dos hackers incluía uma estratégia mais ampla de gestão artificial da reputação digital do banqueiro e de sua instituição financeira.
Segundo os investigadores, teriam sido utilizados robôs e ferramentas automatizadas para reduzir a visibilidade de publicações negativas sobre o Banco Master e ampliar a circulação de conteúdos favoráveis. As ações também teriam envolvido tentativas de acesso a conversas em redes sociais de pessoas próximas, ampliando o alcance da suposta espionagem digital.
Para a PF, esse conjunto de práticas aponta para uma atuação organizada, com o objetivo de antecipar movimentos das autoridades e moldar a opinião pública, enquanto a instituição enfrentava suspeitas financeiras de grande escala.
A suspeita bilionária no centro do caso
No núcleo da investigação está a acusação de que o Banco Master teria vendido falsas carteiras de crédito consignado ao BRB, em uma operação estimada em R$12 bilhões, como forma de tentar cobrir um rombo em suas contas.
A defesa de Vorcaro nega qualquer fraude e sustenta que, ao identificar inconsistências, o próprio Banco Master permitiu a substituição dos ativos pelo BRB, afastando prejuízos.
Um caso que expõe novas fronteiras do crime financeiro
A combinação entre crimes financeiros, espionagem digital e manipulação algorítmica coloca o caso Vorcaro em uma nova fronteira das investigações policiais no país. Não se trata apenas de números, contratos ou balanços, mas de disputas invisíveis travadas em servidores, sistemas e redes sociais.
Com a retomada das investigações por determinação do STF, a Polícia Federal avança agora sobre um terreno sensível: o uso da tecnologia não apenas como ferramenta de negócio, mas como possível arma para burlar o Estado, antecipar investigações e reescrever narrativas.
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