O youtuber Peter Liu enfrenta sérias acusações de manter uma trabalhadora em condições análogas à escravidão por 30 anos, segundo decisão do TRT; família Liu foi condenada a pagar R$ 400 mil por danos morais

William Oliveira Publicado em 13/12/2025, às 08h56
Peter Liu, youtuber e especialista em medicina chinesa com mais de 3 milhões de seguidores, tornou-se alvo de uma controvérsia judicial após decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas, no interior de São Paulo. A Corte condenou membros da família Liu por manterem uma trabalhadora em condições análogas à escravidão ao longo de três décadas.
A ação foi movida por uma ex-funcionária que afirma ter trabalhado por cerca de 30 anos para a família, submetida a jornadas exaustivas, sem registro formal e, por longos períodos, sem qualquer remuneração. Segundo o processo, a mulher era responsável tanto pelos serviços domésticos quanto pela administração da clínica médica da família.
Em sua defesa, Peter Liu declarou que a trabalhadora era funcionária de sua ex-esposa, Jane Liu, e que não mantinha contato com ela havia aproximadamente 20 anos. No entanto, documentos anexados ao processo contestam essa versão. Fotografias de agosto de 2018 mostram o influenciador ao lado da vítima e de familiares em uma sorveteria, o que levantou dúvidas sobre a veracidade do depoimento.
A vítima, cuja identidade é preservada, iniciou as atividades em 1992, quando a família se mudou do Recife (PE) para São Paulo. À época, recebia o equivalente a um salário mínimo, sem qualquer formalização do vínculo empregatício. Promessas de regularização teriam sido feitas após a naturalização da família como brasileira, mas nunca se concretizaram.
Posteriormente, após a mudança para Campinas — ocorrida depois de uma autuação por funcionamento irregular da clínica no Recife — a trabalhadora deixou de receber qualquer pagamento. Natural de Belo Jardim (PE), ela seguiu prestando serviços até 2022, quando, aos 59 anos, decidiu denunciar as condições abusivas e cobrar os salários atrasados.
Durante o período, a funcionária teria sido ameaçada por Jane Liu caso insistisse na cobrança. O juiz Caio Rodrigues Martins Passos condenou a família ao pagamento de R$ 400 mil por danos morais e verbas trabalhistas.
A família recorreu da decisão. A defesa sustenta que não existiu vínculo empregatício e questiona o fato de a ação judicial ter sido ajuizada somente após 30 anos. Os advogados afirmam que a ex-funcionária tentou obter vantagens financeiras após a recusa da família em atender pedidos pessoais e dizem confiar na reversão da condenação.
Um desdobramento adicional envolve Anni Liu, filha de Peter, que atualmente vive com a ex-funcionária e tenta se desvincular das acusações. Anni afirma ter tomado conhecimento das condições precárias da trabalhadora e buscado apoio terapêutico para ela. Advogados da família, no entanto, levantam suspeitas sobre suas motivações, já que a jovem processa os pais enquanto ainda reside sob o mesmo teto.
Diante da gravidade do caso, o magistrado determinou o envio dos autos ao Ministério Público do Trabalho (MPT), ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal (PF) para apuração de possíveis crimes.
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