Operações, realizadas com empresas atuantes no estado, somam um montante de R$ 74 milhões em valores liberados

William Oliveira Publicado em 08/11/2024, às 08h35
Uma investigação interna conduzida pela Desenvolve SP, o banco de fomento do governo do estado de São Paulo, revelou a existência de ao menos 178 empréstimos sob suspeita de fraude. As operações, realizadas com empresas atuantes no estado, somam um montante de R$ 74 milhões em valores liberados.
Os dados obtidos com exclusividade pelo portal Metrópoles revelam uma intricada rede suspeita de utilizar laranjas e empresas de fachada, além da possível conivência de funcionários do banco para fraudar financiamentos, resultando em perdas financeiras significativas para o órgão estadual. As irregularidades teriam ocorrido entre 2021 e 2022, durante as administrações de João Doria e Rodrigo Garcia, ambos do PSDB, anteriores ao atual governador Tarcísio de Freitas.
A Desenvolve SP tem como missão financiar empreendimentos a juros baixos para fomentar a economia paulista, semelhante à atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no âmbito federal. A auditoria interna foi realizada por amostragem e sugere que o prejuízo total pode ser ainda maior.
Em outubro passado, uma operação da Polícia Civil, impulsionada pela auditoria interna do banco, levou à demissão de funcionários suspeitos. A investigação criminal está sob a responsabilidade da 1ª Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Campinas. Segundo o relatório policial, as fraudes eram caracterizadas por empresas que pagavam apenas as parcelas iniciais dos financiamentos. Quando acionadas judicialmente pelo banco para recuperação dos valores, as empresas se mostravam inalcançáveis.
A polícia apontou que os contratos da Desenvolve SP previam longos períodos de carência aos beneficiários, muitas vezes superiores a 12 meses. Esse prazo permitia que os valores fossem dispersos para outras contas e destinatários, configurando potencial lavagem de dinheiro.
A análise dos auditores examinou 340 operações de crédito e classificou as suspeitas em três categorias: provável (82 casos), possível (96 casos) e remoto (162 casos). As operações classificadas como provavelmente fraudulentas totalizavam cerca de R$ 43 milhões.
A investigação policial concentra-se em cinco empresas inicialmente identificadas como suspeitas, bem como em seus sócios e intermediários. A polícia observou conexões entre essas empresas devido a semelhanças nos escritórios de contabilidade e advocacia utilizados, além da dificuldade em localizar sócios e sedes empresariais.
Entre os exemplos destacados está a RWX Terraplanagem e Paisagismo Ltda., considerada uma empresa de fachada sob controle do suposto laranja Raiwander Souza Botelho. Documentos falsificados foram apresentados para obter um financiamento superior a R$ 800 mil junto à Desenvolve SP.
As medidas tomadas até agora incluem o cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão em oito cidades paulistas e o bloqueio de bens e contas bancárias dos envolvidos. Internamente, a Desenvolve SP investigou oito pessoas, o que resultou na demissão de quatro funcionários devido a comportamentos inadequados, como o recebimento de presentes indevidos.
Outro foco da auditoria interna são procuradores que atuavam como intermediários nas operações. Roberto da Cunha Vieira Filho é mencionado como tendo uma carteira com alta inadimplência. Das 340 operações analisadas, 103 estavam vinculadas a ele. A inadimplência associada ao seu portfólio é alarmante: quase 76%, um índice considerado inaceitável mesmo pelos padrões do Banco Central.
Vieira Filho defende-se, alegando que as empresas buscaram capital durante a pandemia de Covid-19 e que cumpriram os requisitos legais para os financiamentos. Ele acionou judicialmente a Desenvolve SP por danos morais, mas teve sua demanda rejeitada pela Justiça.
A Desenvolve SP mantém sigilo sobre detalhes da investigação sob justificativa legal e confirma que as suspeitas estão sob apuração da Polícia Civil. O banco reafirma seu compromisso com as normas do Banco Central do Brasil e com a proteção dos dados pessoais envolvidos.
Leia também

Relembre a Lei Mariana Ferrer, criada após revolta com audiência do caso

Anac autoriza duas novas companhias aéreas internacionais a operar no Brasil

Investigado por suposta falsificação de peças de luxo já foi denunciado pelo GAECO em caso de roubo de cargas

São Paulo entra em alerta para temporais, ventos fortes e queda brusca de temperatura

Apoiadora de Bolsonaro realiza vigília em condomínio mesmo após restrição imposta por Moraes

Exame do IML não detecta lesões em menina de 4 anos; polícia segue com investigação em caso de clube social

Caiado promete pacote de reformas no primeiro dia de governo e inclui mudanças no STF

Thiago Brennand vai se casar com advogada que atua em sua defesa criminal

Justiça bloqueia veículos de empresa de Ana Hickmann em ação por cheques sem fundo

PF investiga suposta fraude financeira no Banco Digimais, ligado a Edir Macedo