Diário de São Paulo
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INVESTIGAÇÃO

Após tiro na cabeça, celular de PM foi acessado e teve dados apagados

A Polícia Civil identificou que o celular de Gisele Alves Santana foi desbloqueado após sua morte, com possível exclusão de mensagens atribuída ao marido, o tenente-coronel Geraldo Neto

O tenente-coronel Geraldo Neto, marido da vítima, está preso como suspeito do crime - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
O tenente-coronel Geraldo Neto, marido da vítima, está preso como suspeito do crime - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

William Oliveira Publicado em 27/03/2026, às 07h39 - Atualizado às 08h26


A investigação da Polícia Civil de São Paulo revelou novos e contundentes elementos sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, ocorrida em 18 de fevereiro, no bairro do Brás, na região central da capital paulista.

O marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Neto, está preso preventivamente desde março. A decisão foi tomada após laudos periciais e análises de dados digitais contradizerem a versão inicial apresentada por ele, de que Gisele teria tirado a própria vida.

Provas digitais 

Um dos principais pontos da investigação envolve a perícia no celular da vítima. Os exames indicam que o aparelho foi manuseado e desbloqueado minutos após o disparo.

Embora o oficial tenha acionado o 190 às 7h54, registros apontam que o celular de Gisele foi desbloqueado posteriormente, sendo o último acesso às 7h58 — fato que levanta suspeitas sobre a dinâmica do crime.

Além disso, a polícia identificou que Geraldo Neto apagou o histórico de conversas em seu próprio celular, numa tentativa de sustentar a narrativa de que ele teria tomado a iniciativa da separação.

No entanto, mensagens recuperadas no aparelho da vítima indicam o contrário. Na noite anterior à morte, Gisele manifestou claramente a intenção de se divorciar:

“Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão”, escreveu às 22h59.

Minutos depois, completou: “Vejo que se arrependeu do casamento, eu também (...) Pode entrar com o pedido [de divórcio] essa semana.”

Histórico de violência

O tenente-coronel Geraldo Neto - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
O tenente-coronel Geraldo Neto - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

Depoimentos de colegas de farda traçam um perfil controlador e agressivo do oficial. Segundo testemunhas, ele já teria agredido Gisele fisicamente dentro do ambiente de trabalho, incluindo episódios em que a pressionou contra a parede e a segurou pelo pescoço.

Ainda conforme os relatos, a soldado — descrita como extrovertida — apresentava comportamento retraído e tenso na presença do marido.

O histórico de instabilidade do tenente-coronel também teria motivado um afastamento temporário do quartel antes mesmo do casamento, após uma discussão acalorada com a vítima.

Suspeita de fraude processual

O Ministério Público aponta ainda que, após o disparo, o oficial teria alterado a cena do crime.

Imagens de câmeras corporais de policiais que atenderam à ocorrência mostram um confronto entre um cabo — que tentava preservar o local — e o tenente-coronel, que insistia em circular pelo apartamento, tomar banho e remover objetos.

Segundo a acusação, o militar teria se valido da própria patente para interferir no trabalho da perícia.

Defesa mantém versão de suicídio

Durante audiência de custódia, Geraldo Neto reiterou que a morte da esposa teria sido um suicídio.

“Ela se suicidou com minha arma no meu apartamento”, declarou.

A defesa, representada pelo escritório Malavasi Sociedade de Advogados, contesta a competência da Justiça comum para julgar o caso e afirma que o oficial sempre colaborou com as investigações.

Em nota, os advogados criticam a divulgação de informações que consideram descontextualizadas e alegam que a prisão é ilegal, por ter sido decretada por autoridade incompetente.

Júri popular

O processo deve ser encaminhado ao Tribunal do Júri, já que o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida.

Com a nova legislação em vigor desde 2024, que tornou o feminicídio um crime autônomo, a pena pode variar entre 20 e 40 anos de prisão.

Este é o primeiro caso, desde 2015, de um oficial de alta patente da Polícia Militar de São Paulo preso sob acusação de feminicídio.


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