Visita de quatro dias ocorre em meio a crise diplomática, divergências sobre o Irã e críticas públicas de Trump ao premiê britânico

Erika Osti Publicado em 27/04/2026, às 17h26
O rei Charles III iniciou nesta segunda-feira (27) uma visita de Estado aos Estados Unidos em um dos momentos mais delicados da relação entre Londres e Washington nas últimas décadas. Ao lado da rainha Camilla, o monarca desembarcou em Washington para uma agenda de quatro dias que combina compromissos diplomáticos e eventos simbólicos, em meio a atritos políticos envolvendo a guerra contra o Irã, críticas do presidente Donald Trump ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer e até um recente incidente de segurança na capital americana.
A viagem, planejada antes da escalada do conflito no Oriente Médio, coincide com as celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, marco histórico que remete à ruptura das antigas colônias com a Coroa britânica. Apesar do simbolismo, o contexto atual é de desgaste. Analistas e historiadores classificam o momento como o mais tenso na relação bilateral desde a Crise de Suez, nos anos 1950.
O principal ponto de fricção é a recusa do Reino Unido em aderir à ofensiva militar liderada por Washington contra o Irã. A decisão irritou Trump, que passou a criticar publicamente Starmer, chegando a questionar sua liderança e a capacidade militar britânica. Em declarações recentes, o presidente americano afirmou que o premiê “não é Winston Churchill” e desdenhou dos porta-aviões do país, chamando-os de “brinquedos”.
Outro fator que elevou a tensão foi o vazamento de um documento interno do Pentágono indicando que os Estados Unidos poderiam rever seu apoio à soberania britânica sobre as Ilhas Malvinas, território disputado com a Argentina. O gesto foi interpretado como pressão política sobre aliados considerados pouco engajados no conflito com o Irã.
Apesar do cenário, a visita foi mantida e reforçada em termos de segurança após um ataque a tiros ocorrido no sábado (25), durante um jantar com a presença de Trump em Washington. O incidente levou a ajustes operacionais, mas não alterou o cronograma oficial.
A agenda do rei começou com um encontro reservado com Trump e a primeira-dama Melania Trump, seguido de uma recepção nos jardins da Casa Branca. Na terça-feira (28), Charles será recebido com honras militares e participará de uma reunião privada com o presidente no Salão Oval, considerado o momento mais sensível da viagem. Ainda no mesmo dia, discursará em sessão conjunta do Congresso americano, repetindo um gesto feito pela rainha Elizabeth II em 1991.
Nos bastidores, há cautela sobre possíveis declarações imprevisíveis de Trump durante os encontros. Autoridades britânicas evitam exposição direta e não preveem interação com a imprensa nesses momentos.
A programação inclui ainda compromissos em Nova York, com visita ao memorial do 11 de Setembro, e eventos na Virgínia ligados às celebrações históricas dos EUA. Ao longo da viagem, o discurso do rei deve priorizar temas como cooperação internacional, inovação, defesa e laços culturais, evitando questões políticas imediatas.
Embora constitucionalmente afastado de decisões de governo, Charles é visto como peça-chave no esforço britânico de preservar a chamada “relação especial” com os Estados Unidos. A estratégia aposta no papel simbólico da monarquia para atravessar crises políticas e reforçar vínculos de longo prazo.
A viagem também é tratada como um teste importante para o reinado. Parte da classe política britânica chegou a sugerir o cancelamento da visita, temendo constrangimentos diplomáticos. O governo de Starmer rejeitou a ideia, defendendo que o papel da monarquia é justamente manter pontes em momentos de instabilidade.
Nos bastidores, a expectativa é que a presença do rei ajude a reduzir o tom das tensões. O próprio Trump sinalizou disposição para amenizar o discurso, elogiando Charles e afirmando que a visita pode contribuir para reaproximar os dois países.
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