Diário de São Paulo
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Fim de uma era

Mistério na Coreia do Sul: milhares de cães desaparecem antes de proibição histórica da carne canina

Com a extinção gradual da indústria da carne de cachorro, ativistas denunciam sumiço de animais e temem que milhares tenham sido abatidos antes da entrada em vigor da nova legislação.

Entidades suspeitam que milhares de animais tenham sido abatidos antes da proibição definitiva da carne canina. - Imagem: Jung Yeon-je / AFP
Entidades suspeitam que milhares de animais tenham sido abatidos antes da proibição definitiva da carne canina. - Imagem: Jung Yeon-je / AFP

Redação Publicado em 29/06/2026, às 12h17


A Coreia do Sul se prepara para a implementação de uma lei que proíbe a criação, abate e comercialização de carne de cachorro, com a entrada em vigor prevista para fevereiro de 2027, gerando o desaparecimento de milhares de cães destinados ao consumo humano.

Dados do Ministério da Agricultura indicam que, em 2024, havia entre 400 mil e 450 mil cães criados para consumo, mas atualmente restam apenas cerca de 20 mil, sem rastreamento oficial sobre o destino da maioria deles após o fechamento de fazendas e matadouros.

Embora o governo ofereça compensações financeiras por animais descartados, a falta de acompanhamento gera preocupações entre ativistas, que temem que muitos cães tenham sido sacrificados antes da proibição, enquanto a transformação cultural na sociedade sul-coreana contribui para o declínio do consumo de carne canina.

A poucos meses da entrada em vigor da lei que proibirá definitivamente a criação, o abate e a comercialização de carne de cachorro na Coreia do Sul, um novo e preocupante mistério mobiliza autoridades e entidades de proteção animal: o desaparecimento de milhares de cães criados para consumo humano.

A legislação, aprovada pelo Parlamento sul-coreano em 2024, passará a valer integralmente em fevereiro de 2027 e prevê penas de até três anos de prisão para quem continuar atuando no setor.

Com a proximidade do prazo, fazendas, matadouros e estabelecimentos especializados vêm encerrando suas atividades em ritmo acelerado. Dados do Ministério da Agricultura da Coreia do Sul apontam que, em 2024, entre 400 mil e 450 mil cães eram criados para consumo no país. Atualmente, restariam apenas cerca de 20 mil animais.

O problema, segundo organizações de defesa animal, é que não há qualquer rastreamento oficial sobre o destino da imensa maioria desses cães.

Embora o governo ofereça compensações financeiras de até 600 mil wones (aproximadamente R$ 2 mil) por animal descartado pelos criadores, os fiscais apenas verificam se os cães deixaram as propriedades, sem acompanhar o que acontece com eles posteriormente.

O cenário tem gerado forte preocupação entre ativistas, que suspeitam que milhares de animais tenham sido sacrificados antes mesmo da proibição entrar em vigor.

Dados obtidos por parlamentares mostram que, até fevereiro deste ano, apenas 623 cães haviam sido oficialmente adotados e menos de 500 encaminhados a abrigos, número considerado muito abaixo do esperado diante do tamanho da indústria.

"Se milhares de cães estivessem sendo encaminhados para adoção, as organizações de proteção saberiam. Isso simplesmente não aconteceu", afirmou Kim Young-hwan, representante da entidade CARE, uma das principais organizações de defesa animal do país.

A transformação cultural na sociedade sul-coreana também acelerou o fim do setor. Tradicionalmente consumida por gerações mais antigas e em regiões rurais, a carne canina perdeu espaço entre os jovens, que passaram a ver os cães predominantemente como animais de companhia.

Mesmo assim, antigos produtores criticam a medida. Ju Yeong-bong, ex-criador de cães e pastor cristão, classificou a proibição como uma "traição" aos trabalhadores do setor.

Para especialistas em direitos animais, entretanto, a nova legislação representa um marco histórico. Até então, os cães não eram oficialmente classificados como gado no país, o que permitia que a atividade operasse durante décadas sem regras específicas de bem-estar animal.

Em antigas instalações visitadas por jornalistas, ainda foram encontrados equipamentos supostamente usados para eletrocutar os animais, reforçando denúncias sobre práticas cruéis adotadas pela indústria.