Em Mossul mora Thanoun Yahya, resistente cristão iraquiano. Os militares do autoproclamado Estado Islâmico ocuparam sua casa durante três anos. É um dos

Redação Publicado em 02/03/2021, às 00h00 - Atualizado às 11h08
Em Mossul mora Thanoun Yahya, resistente cristão iraquiano. Os militares do autoproclamado Estado Islâmico ocuparam sua casa durante três anos. É um dos muitos testemunhos de quem sofreu na pele a violência da guerra. Na visita de três dias ao Iraque, com início marcado para a próxima sexta-feira (5), o papa Francisco fará uma parada em Mossul. Pretende aproximar-se das comunidades vítimas do conflito, onde igrejas foram usadas como tribunais religiosos pelos islamitas.

Thanoun Yahya, de 59 anos, não apagou a mensagem no portão deixada pelos ocupantes. “O Estado Islâmico perdura”, escreveram.
Essa memória assinala a resistência da minoria cristã que ainda vive em território iraquiano. “Mas não restam muitos de nós. A geração mais jovem quer partir”, disse Yahya à Reuters.
No bairro onde mora, só resta a família de Thanoun. Antes, viveram ali mais de 20 pessoas.
“O papa não nos pode ajudar, apenas Deus pode”, disse Yahya, sem deixar de sublinhar que aprecia a visita do Sumo Pontífice da Igreja Católica.
Os cristãos no Iraque chegaram a ser 1,5 milhão e eram tolerados durante o governo de Saddam Hussein. Após a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, começou a partida em massa de crentes cristãos.
Em 2004, as minorias religiosas eram sequestradas e executadas pela Al Qaeda. Yahya recorda que teve de vender a serralharia da família para pagar o resgate do irmão.
Mossul foi convertida em cidade-sede do governo islâmico quando, em 2014, um terço do território iraquiano estava sob domínio do Estado Islâmico.
A família de Yahya fugiu para o território curdo ao norte do Iraque e foi das poucas que regressou a Mossul, depois de o Estado Islâmico ceder às mãos dos militares iraquianos, em 2017. Temem que a história se repita.
Atualmente há cerca de 400 mil cristãos no Iraque.
O cardeal Sandri, citado no Vatican News, explica que a viagem do Papa Francisco pretende transmitir uma “mensagem de consolo, de paz, de admiração por tudo o que sofreram”. A mensagem solidária não se dirige apenas a cristãos.
“Ele terá palavras poderosas para o Iraque, onde foram cometidos crimes contra a humanidade”, diz Najeeb Michaeel, arcebispo católico caldeu da cidade de Mossul, citado na France 24.
Francisco pretende que, desse contacto com as diferentes comunidades religiosas, resulte um melhor diálogo cristão-muçulmano. Nests contexto, a agenda do Sumo Pontífice integra um encontro com o principal clérigo xiita, o grande ayatollah Ali Sistani, em Najaf, ao sul de Bagdá.
“É uma visita histórica, o encontro terá grande impacto, estamos falando do chefe de uma comunidade religiosa que representa 20% da população mundial”, destacou o governador de Najaf, Luay al-Yasserit, citado pela France 24.
Francisco foi convidado pelo presidente Barham Saleh em 2019, e a visita ao Iraque irá até 8 de março.
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