Uma pesquisa revela que a guerra em Gaza é a mais mortal para jornalistas, com ataques deliberados visando a mídia

Gabriela Thier Publicado em 27/08/2025, às 15h37
A situação na Faixa de Gaza se agrava, destacando-se por um número alarmante de mortes de jornalistas. Segundo dados do Sindicato dos Jornalistas Palestinos, desde o início do atual conflito em 7 de outubro de 2023, foram contabilizados 246 profissionais da mídia assassinados, um número que supera os registrados em diversos conflitos históricos.
Esse total ultrapassa as fatalidades combinadas observadas nas duas Guerras Mundiais, na Guerra Civil Americana, nos conflitos na Síria e no Vietnã — que inclui as guerras no Camboja e Laos — além das guerras na Iugoslávia e na Ucrânia. Os dados históricos sobre jornalistas mortos foram compilados pelo Memorial Freedom Forum, com exceção do conflito ucraniano, cujas informações foram fornecidas pelo Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ).
Uma pesquisa da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, caracteriza a guerra em Gaza como "o mais letal dos conflitos para jornalistas na história". Entidades internacionais que defendem os direitos dos jornalistas afirmam que Israelrealiza ataques deliberados com o intuito de silenciar a cobertura da guerra. O governo israelense, liderado por Benjamin Netanyahu, refuta essas alegações.
O CPJ declarou: "Israel está promovendo um esforço sistemático e letal para eliminar jornalistas. Profissionais palestinos estão sendo ameaçados, alvejados e assassinados pelas forças israelenses, além de serem detidos arbitrariamente e submetidos a torturas". A entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza permanece restrita, sendo necessária a escolta militar israelense, dificultando assim o acesso à informação para a comunidade global.
No segundo mês do conflito, 37 jornalistas perderam a vida na Faixa de Gaza. Sherif Mansour, coordenador do CPJ, destacou que "o Exército israelense matou mais jornalistas em dez semanas do que qualquer outro exército durante um único ano".
Adicionalmente, o Sindicato dos Jornalistas Palestinos reportou que 520 jornalistas sofreram ferimentos causados por balas ou mísseis israelenses, enquanto 800 familiares desses profissionais foram mortos. Desde o início do conflito em outubro de 2023, 206 jornalistas palestinos foram presos por Israel; atualmente, 55 permanecem encarcerados, sendo 23 sob prisão administrativa.
Os ataques aéreos e bombardeios terrestres destruíram 115 veículos de comunicação na Faixa de Gaza e resultaram no fechamento ou destruição de várias gráficas na Cisjordânia e em Jerusalém.
Israel nega a intenção de atacar civis durante o conflito. No entanto, ao justificar algumas mortes ao associar jornalistas ao Hamas, essas alegações são frequentemente contestadas por organizações profissionais e defensoras dos direitos humanos.
Em uma entrevista exclusiva à Agência Brasil em fevereiro de 2024, Wael Al-Dahdouh, chefe da Al Jazeera em Gaza — que perdeu sua esposa e três filhos devido aos bombardeios israelenses — afirmou que o trabalho jornalístico na região é o mais arriscado da história.
Um episódio marcante ocorreu no dia 25 de fevereiro quando o Hospital Nasser foi bombardeado enquanto equipes jornalísticas documentavam os efeitos de um ataque anterior. Este ataque resultou na morte de 20 pessoas, incluindo cinco jornalistas. Entre os profissionais falecidos estavam Hussam Al-Masri da Reuters e Mohammed Salama da Al Jazeera.
A Força de Defesa de Israel (FDI) afirmou que não ataca intencionalmente civis e acusou o Hamas de utilizar o hospital para fins militares. O porta-voz do exército mencionou que uma investigação foi iniciada para esclarecer as circunstâncias do ataque.
A organização Monitor Euro-Mediterrâneo de Direitos Humanos indicou que ataques como esses são realizados com o objetivo específico de atingir equipes médicas e jornalistas, transformando locais de socorro em armadilhas mortais.
Israel também acusou jornalistas ligados à Al Jazeera de trabalharem para o Hamas. Em agosto deste ano, Anas al-Sharif foi morto enquanto cobria eventos próximos ao Hospital al-Shifa. Após sua morte, uma mensagem escrita por ele foi divulgada ressaltando seu compromisso com a verdade. A Al Jazeera repudiou as acusações feitas contra Anas al-Sharif e destacou a importância do trabalho jornalístico em Gaza como uma fonte vital de informação sobre a realidade enfrentada pela população local.
O acesso a alimentos se tornou outra barreira significativa para os repórteres na região devido ao bloqueio imposto por Israel. Em julho deste ano, agências como AFP e BBC expressaram preocupação com a fome generalizada entre os jornalistas em Gaza. Uma declaração conjunta revelou que muitos profissionais estão tendo dificuldade para alimentar suas famílias.
O governo israelense negou repetidamente a existência da fome na Faixa de Gaza, afirmando que ajuda humanitária está sendo distribuída. Contudo, essa afirmação contrasta com evidências visuais e relatos provenientes da região.
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