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COLUNA

Sugestões para ser um herói

Ulisses e as Sereias. Astúcia e inteligência contra a sedução das respostas fáceis

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Ulisses e as Sereias. Astúcia e inteligência contra a sedução das respostas fáceis - Ulisses e as Sereias. Astúcia e inteligência contra a sedução das respostas fáceis
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 22/04/2025, às 16h26


Na calmaria de um domingo sonolento e frio, uma notícia do jornal me chama a atenção. Christopher Nolan, após o sucesso de Oppenheimer, já trabalha em um novo projeto: trata-se da adaptação para os cinemas de A Odisseia, poema épico de Homero, com estreia marcada para 17 de julho de 2026.

"Ulisses, mais uma vez!" deixo escapar com alegria, fã ardorosa que sou da cultura grega.

O filme seguirá a jornada longa e cheia de percalços de Odisseu — ou Ulisses — quando retorna para casa após a Guerra de Troia.

E se há um herói que sempre provocará admiração, é esse personagem, cheio de astúcia e inteligência,que enfrentará, durante dez anos, os desafios que os deuses lhe impõem. Ciclopes, sereias, feiticeiras e ninfas misteriosas surgem como obstáculos perigosos em seu caminho até Ítaca, onde sua esposa Penélope precisa lidar com pretendentes que disputam seu trono, certos de que ele jamais voltará.

O mito da chegada

Uma pergunta me desafia: por que o fascínio pelos grandes heróis persiste em nós?

Aquiles, Hércules, os santos — todos esculpidos em mármore para queesquecêssemos a argila que nos forma. O herói de pedra é uma ilusão reconfortante: terminado, pleno, intocável.

Nietzsche, o filósofo que nos ensinou a desconfiar de ídolos, escreveu: "O que é grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim."

Não somos destinos, mas passagens.

Desde as civilizações mais antigas, o herói foi celebrado como aquele que atravessava o impossível — mares, desertos, o próprio medo. Seja na epopeia de Gilgamesh, nas pirâmides do Egito, nos cânticos indígenas ou nos mitos gregos, sempre existiu a necessidade de reconhecer o ato heroico. Não
apenas por sua glória, mas porque nele víamos a capacidade humana de vencer a limitação e afirmar o sentido da vida.

Essa necessidade resiste ao tempo, porque nasce de uma verdade íntima:cada vida é feita de passagens — do medo à esperança, da juventude à maturidade, da perda ao recomeço.

A travessia exige mais que força física: exige estofo interior, coragem silenciosa, bravura que aceita dor e dúvida como parte do caminho.

O herói mítico realiza uma façanha e encerra sua história. O humano, nunca. Sua missão é justamente nunca parar de se refazer.

A arte como espelho da travessia heroica

Desde as inscrições rupestres até as instalações contemporâneas, a arte foi, e continua sendo, o grande espelho da travessia humana.

A Conversão de São Paulo (1601), de Caravaggio. A travessia interior – a luz que interrompe  uma vida para iniciar outra
A Conversão de São Paulo (1601), de Caravaggio. A travessia interior – a luz que interrompe uma vida para iniciar outra

Ulisses, a ponte sobre o abismo do saber

Amarrado ao mastro de seu próprio limite, Ulisses não vence as sereias, vence a ilusão do saber absoluto. Seu feito não foi ouvi-las, mas seguir adiante mesmo após escutá-las. Ulisses é o homem que, mesmo tendo vislumbrado o inexplicável, seque em frente.

É nesse movimento que reside sua grandeza — e a nossa.

Exodus, a epopeia dos que não têm música
Enquanto os heróis antigos invocavam deuses, muitos caminhantes carregam apenas o corpo contra a  geografia do desespero. Sua grandeza? Caminhar mesmo sem promessa de Ítaca.

O impulso heroico é o de atravessar o sofrimento em busca de dignidade.

É ele que mantém acesa, mesmo nas noites mais escuras, a chama da esperança.

Exodus, de Sebastião Salgado. A travessia real dos que buscam sobreviver e  sonhar.
Exodus, de Sebastião Salgado. A travessia real dos que buscam sobreviver e sonhar.

Love, o último mito moderno

Criada nos anos 60, a escultura LOVE, de Robert Indiana, ganhou nova urgência no século XXI: amar tornou-se a travessia mais perigosa. Não o amor romântico, mas o ato de permanecer vulnerável em um mundo que venera a blindagem.

Amar, hoje, é heroísmo silencioso — e talvez por isso, tão invisível quanto essencial. No afeto autêntico resistimos ao vazio que ameaça devorar as relações humanas.

Love, de Robert Indiana. O amor como travessia heroica no tumulto da vida  moderna
Love, de Robert Indiana. O amor como travessia heroica no tumulto da vida moderna

Boccioni, o corpo que se desfaz para se refazer

Na escultura futurista de Boccioni, não há rostos, apenas impulso.

Braços, pernas, tronco: tudo é travessia.

Ser humano é estar sempre no meio do passo, nunca no seu término.

O herói não é quem chega, mas quem aceita que a queda faz parte do voo.

Cada passo arriscado é, por si só, uma vitória

Formas Únicas da Continuidade no Espaço, de Umberto Boccioni.
Formas Únicas da Continuidade no Espaço, de Umberto Boccioni.

Uma palavra final e instruções para atravessar

Nietzsche nos deixou um mapa sem rotas: somos pontes que só existem quando atravessadas. A condição humana não é a de repouso. É a de travessia constante: entre o medo e a esperança, a dor e o renascimento.

Sugiro, por isso, três verdades para viajantes:

Toda ponte treme – e é no tremor que se reconhece sua força.

Não existe herói completo – apenas rascunhos em permanente revisão.

As melhores travessias são aquelas que nos transformam em caminho.

Em outras palavras: os verdadeiros heróis não cabem em artigos. Estão
ocupados demais atravessando.


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