
por Marlene Theodoro Polito
Publicado em 21/07/2026, às 08h00
Há construções que parecem pertencer ao passado. Outras parecem anunciar o futuro. A Sagrada Família, em Barcelona, provoca uma sensação mais estranha: parece fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Vista de longe, sua imagem lembra uma aparição. Há nela algo dos castelos de areia que fazemos nas praias: torres que parecem nascer da própria matéria, superfícies modeladas pela mão. Mas, ali, a brincadeira da infância se transforma em arquitetura monumental.
Fachadas se cobrem de figuras, símbolos, plantas, animais, cenas bíblicas, sinais de uma imaginação que não se contenta com a linha reta nem com a superfície lisa. Nada parece repousar por completo. A pedra sobe, se dobra, se multiplica, se abre à luz.
O espanto provocado pela Sagrada Família não nasce do acaso. Vem de uma história longa. Para compreendê-la, talvez seja preciso voltar alguns séculos e olhar para as antigas igrejas medievais.
Entre os séculos XI e XII, a arquitetura românica parecia acolher o peso da pedra. Seus muros espessos, seus arcos arredondados e suas janelas menores criavam espaços de penumbra, recolhidos, protegidos do mundo exterior. Ali, a luz entrava com parcimônia. O ambiente convidava menos ao deslumbramento do olhar do que à concentração, ao silêncio e ao temor diante do sagrado.
A partir do século XII, sobretudo na França, o gótico deslocou essa lógica. Arcos ogivais, abóbadas nervuradas, vitrais e arcobotantes permitiram construções mais altas, paredes mais abertas e interiores tomados por outra luz. Depois da penumbra românica, a catedral gótica parecia criar um mundo próprio, pleno de cores, imagens e claridade filtrada. Não queria apenas abrigar o fiel, mas elevar seu olhar e permitir que ele pressentisse uma dimensão transcendente.
Os vitrais tinham papel decisivo nessa experiência. Não se tratava apenas de iluminar. A luz entrava filtrada, colorida, narrada. Deixava de ser a mesma luz do lado de fora. Criava um ambiente quase suspenso, no qual o fiel não apenas via as imagens, mas parecia atravessado por elas.
Mas essa verticalidade não pertencia apenas ao campo da fé. Também dialogava com o poder. Na França gótica, a luz e a altura afirmavam a monarquia. Reims recebia a sagração dos reis vivos; Saint-Denis guardava os reis mortos.; a Sainte-Chapelle transformava relíquias cristãs em esplendor monárquico. Era uma arquitetura que ajudava os reis da França a marcar seu lugar no mundo.
Com o tempo, porém, essa linguagem ultrapassou as circunstâncias que a haviam produzido. O desejo de elevar a matéria e transformar o espaço em experiência espiritual passou a integrar uma memória mais ampla da arquitetura ocidental.
Séculos depois, já no fim do XIX, Gaudí herdaria esse impulso de elevação e transcendência. Mas, na Sagrada Família, a pedra já não parece afirmar um poder terreno. Parece procurar uma respiração espiritual, orgânica, quase vegetal.
Embora não seja uma catedral – é uma basílica –, a Sagrada Família conversa intensamente com essa tradição. A obra começou em 1882, ainda ligada a um projeto de inspiração neogótica. No ano seguinte, Antoni Gaudí assumiu a construção e a conduziu para outro destino. Não abandonou o impulso vertical das catedrais, nem o diálogo com a fé. Mas recusou repetir a Idade Média. Em suas mãos, a arquitetura passou a obedecer a outra lógica.
Nas catedrais góticas, os arcobotantes sustentavam por fora o impulso da pedra que queria subir. Gaudí procurou outro caminho. Na Sagrada Família, a sustentação parece nascer de dentro: colunas inclinadas se ramificam como árvores e distribuem o peso como se a arquitetura tivesse aprendido uma lição com a natureza.
Esse talvez seja um dos grandes encantos da Sagrada Família. Nas catedrais medievais, a pedra se esforça para subir. Em Gaudí, ela parece ganhar vida. A luz não apenas entra: atravessa, colore, modifica o espaço. A decoração não se sobrepõe à arquitetura: nasce dela. Folhas, frutos, conchas, ossos e montanhas participam da construção.
Gaudí não copiou a natureza. Observou suas leis secretas e as transformou em linguagem arquitetônica. Se a catedral gótica procurava vencer o peso da pedra, ele parece ter perguntado se a pedra não poderia aprender com as árvores.
Por isso, a Sagrada Família não é apenas uma continuação do gótico. É uma transfiguração. Conserva a verticalidade, a luz, o desejo de transcendência e a ideia de uma obra maior que uma vida. Mas desloca tudo isso para uma experiência diferente.
Gaudí não rompe com a tradição das catedrais, mas escuta essa tradição, recria seus caminhos e a faz falar outra língua. A fé não aparece apenas como doutrina em pedra. Aparece como organismo vivo.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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