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É sério que isso está aqui?

Quando a arte nos obriga a olhar de novo

É sério que isso está aqui? - Imagem: ChatGPT
É sério que isso está aqui? - Imagem: ChatGPT
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 30/12/2025, às 08h00


Fountain, Marcel Duchamp (1917) Fotografia de Alfred Stieglitz
Fountain, Marcel Duchamp (1917) Fotografia de Alfred Stieglitz

Entro no museu ainda com aquele respeito quase automático que certos espaços impõem. No MoMA, o silêncio parece calculado, os passos ficam mais contidos, como se o ambiente exigisse uma postura à altura do que abriga. Paro diante de Fountain, de Marcel Duchamp. Um mictório branco, banal, exposto com a solenidade reservada a obras consagradas.

Logo atrás de mim, uma jovem se inclina discretamente e comenta, num misto de espanto e ironia: — É sério que isso está aqui?

Ela olha para o objeto, depois para a sala, tentando conciliar duas realidades que parecem incompatíveis: um mictório e um museu. O banheiro público e o templo da arte. Sorrio em silêncio. Não porque discorde dela, mas porque percebo que Duchamp venceu mais uma vez.

Diante de certas obras, algo falha. O olhar, acostumado a reconhecer formas e atribuir sentidos rapidamente, tropeça. Ver já não basta.

O desconcerto é imediato. O espectador hesita: observa como obra ou reconhece como objeto funcional? Ri, rejeita, se indigna ou pensa? Nesse instante de suspensão ocorre o curto-circuito mental. Privado de seus automatismos, o olhar é forçado a refletir.

Em 1917, ao apresentar esse objeto comum como obra de arte, Marcel Duchamp não ofereceu beleza, emoção ou virtuosismo técnico. Ofereceu um impasse.

Esse gesto inaugura um princípio que atravessa a arte moderna e contemporânea: o novo não é uma forma inédita, mas a interrupção de um hábito. Duchamp não criou um objeto novo. Ele interrompeu um modo antigo de ver. O hábito de reconhecer antes de questionar.

A partir desse ponto, a arte deixa de oferecer respostas prontas e passa a formular perguntas.

Com René Magritte, essa instabilidade do olhar se torna ainda mais evidente. Em A Traição das Imagens, vemos um cachimbo perfeitamente reconhecível, acompanhado da frase “Isto não é um cachimbo”.

La trahison des images (1929) - Ceci n’est pas une pipe, de René Magritte
La trahison des images (1929) - Ceci n’est pas une pipe, de René Magritte

A imagem afirma uma coisa; o texto nega. O olho reconhece, mas o pensamento tropeça. Magritte lembra que a imagem não é a coisa, e que confiar cegamente no que vemos pode ser uma armadilha.

Com Joseph Kosuth, a ruptura avança para o campo da linguagem e da ideia. Em One and Three Chairs (1965), uma cadeira real é colocada ao lado de sua fotografia e da definição retirada do dicionário.

Nenhum desses elementos, isoladamente, esgota o que é uma cadeira. Objeto, imagem e conceito entram em curto-circuito. A obra já não pede contemplação; pede reflexão.

Cadeiras Uma e Três de Joseph Kosuth (1965)
Cadeiras Uma e Três de Joseph Kosuth (1965)

Nesse território, a arte não busca aplauso nem encantamento imediato. Ela pede atenção.

O corpo como campo de ruptura

Se Duchamp interrompe o automatismo do olhar, o corpo moderno interrompe o automatismo do reconhecimento. Já não se trata de representar o corpo como ideal de harmonia ou beleza, mas de expor o que ele vive.

Nos autorretratos de Egon Schiele, o corpo surge magro, retorcido, tenso. A mão no peito não sugere serenidade, mas inquietação. Não há intenção de agradar.  O corpo se apresenta como confissão. Olhar deixa de ser um gesto neutro; surge um leve constrangimento. O desconforto não está apenas no corpo exposto, mas no olhar que se reconhece invasivo.

Egon Schiele — Self-Portrait with Hand on Chest (1910) 
Egon Schiele — Self-Portrait with Hand on Chest (1910) 

O deslocamento do sentido

Depois de interromper o automatismo do olhar e de tensionar o corpo como forma reconhecível, a arte dá um passo decisivo: desloca o sentido. O impacto já não está apenas no que se vê, mas no que se pressente.

Blue Monochrome / International Klein Blue, de Yves Klein (1961)
Blue Monochrome / International Klein Blue, de Yves Klein (1961)

Nos monocromos de Yves Klein, o espectador se depara com uma superfície azul intensa, uniforme, sem figura, sem narrativa. À primeira vista, parece haver pouco a dizer. Justamente aí reside a força da obra. O azul deixa de funcionar como cor representativa e passa a operar como experiência.

Não há história a seguir nem imagem a decifrar. O sentido não se impõe; ele se insinua. Ou não vem. A obra exige tempo, silêncio e disponibilidade. O novo não nasce do acréscimo, mas da retirada.

Talvez por isso essas obras incomodem ou até irritem. Elas exigem algo raro no mundo contemporâneo: atenção prolongada. Exigem a disposição de abandonar o automatismo não apenas do olhar, mas também do entendimento.

Depois de Duchamp, do corpo fragmentado e do sentido deslocado, talvez reste menos uma conclusão do que uma disposição, a de aceitar que nem tudo precisa ser imediatamente compreendido, classificado ou resolvido.

Num mundo que exige respostas rápidas, a arte insiste em outro gesto: a demora. Ela cria zonas de suspensão, lugares onde o olhar já não corre à frente do pensamento. Onde ver não basta. E talvez nunca tenha bastado.

Não se trata de encontrar sentidos definitivos, mas de sustentar a experiência enquanto ela acontece. Permanecer diante do que não se fecha. Habitar esse intervalo incômodo, porém fértil, entre o que vemos e o que ainda não sabemos nomear.

Talvez seja aí, nesse espaço provisório e instável, que algo realmente novo comece a se esboçar.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]


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