Quando a arte nos obriga a olhar de novo

por Marlene Polito
Publicado em 30/12/2025, às 08h00

Entro no museu ainda com aquele respeito quase automático que certos espaços impõem. No MoMA, o silêncio parece calculado, os passos ficam mais contidos, como se o ambiente exigisse uma postura à altura do que abriga. Paro diante de Fountain, de Marcel Duchamp. Um mictório branco, banal, exposto com a solenidade reservada a obras consagradas.
Logo atrás de mim, uma jovem se inclina discretamente e comenta, num misto de espanto e ironia: — É sério que isso está aqui?
Ela olha para o objeto, depois para a sala, tentando conciliar duas realidades que parecem incompatíveis: um mictório e um museu. O banheiro público e o templo da arte. Sorrio em silêncio. Não porque discorde dela, mas porque percebo que Duchamp venceu mais uma vez.
Diante de certas obras, algo falha. O olhar, acostumado a reconhecer formas e atribuir sentidos rapidamente, tropeça. Ver já não basta.
O desconcerto é imediato. O espectador hesita: observa como obra ou reconhece como objeto funcional? Ri, rejeita, se indigna ou pensa? Nesse instante de suspensão ocorre o curto-circuito mental. Privado de seus automatismos, o olhar é forçado a refletir.
Em 1917, ao apresentar esse objeto comum como obra de arte, Marcel Duchamp não ofereceu beleza, emoção ou virtuosismo técnico. Ofereceu um impasse.
Esse gesto inaugura um princípio que atravessa a arte moderna e contemporânea: o novo não é uma forma inédita, mas a interrupção de um hábito. Duchamp não criou um objeto novo. Ele interrompeu um modo antigo de ver. O hábito de reconhecer antes de questionar.
A partir desse ponto, a arte deixa de oferecer respostas prontas e passa a formular perguntas.
Com René Magritte, essa instabilidade do olhar se torna ainda mais evidente. Em A Traição das Imagens, vemos um cachimbo perfeitamente reconhecível, acompanhado da frase “Isto não é um cachimbo”.

A imagem afirma uma coisa; o texto nega. O olho reconhece, mas o pensamento tropeça. Magritte lembra que a imagem não é a coisa, e que confiar cegamente no que vemos pode ser uma armadilha.
Com Joseph Kosuth, a ruptura avança para o campo da linguagem e da ideia. Em One and Three Chairs (1965), uma cadeira real é colocada ao lado de sua fotografia e da definição retirada do dicionário.
Nenhum desses elementos, isoladamente, esgota o que é uma cadeira. Objeto, imagem e conceito entram em curto-circuito. A obra já não pede contemplação; pede reflexão.

Nesse território, a arte não busca aplauso nem encantamento imediato. Ela pede atenção.
Se Duchamp interrompe o automatismo do olhar, o corpo moderno interrompe o automatismo do reconhecimento. Já não se trata de representar o corpo como ideal de harmonia ou beleza, mas de expor o que ele vive.
Nos autorretratos de Egon Schiele, o corpo surge magro, retorcido, tenso. A mão no peito não sugere serenidade, mas inquietação. Não há intenção de agradar. O corpo se apresenta como confissão. Olhar deixa de ser um gesto neutro; surge um leve constrangimento. O desconforto não está apenas no corpo exposto, mas no olhar que se reconhece invasivo.

Depois de interromper o automatismo do olhar e de tensionar o corpo como forma reconhecível, a arte dá um passo decisivo: desloca o sentido. O impacto já não está apenas no que se vê, mas no que se pressente.

Nos monocromos de Yves Klein, o espectador se depara com uma superfície azul intensa, uniforme, sem figura, sem narrativa. À primeira vista, parece haver pouco a dizer. Justamente aí reside a força da obra. O azul deixa de funcionar como cor representativa e passa a operar como experiência.
Não há história a seguir nem imagem a decifrar. O sentido não se impõe; ele se insinua. Ou não vem. A obra exige tempo, silêncio e disponibilidade. O novo não nasce do acréscimo, mas da retirada.
Talvez por isso essas obras incomodem ou até irritem. Elas exigem algo raro no mundo contemporâneo: atenção prolongada. Exigem a disposição de abandonar o automatismo não apenas do olhar, mas também do entendimento.
Depois de Duchamp, do corpo fragmentado e do sentido deslocado, talvez reste menos uma conclusão do que uma disposição, a de aceitar que nem tudo precisa ser imediatamente compreendido, classificado ou resolvido.
Num mundo que exige respostas rápidas, a arte insiste em outro gesto: a demora. Ela cria zonas de suspensão, lugares onde o olhar já não corre à frente do pensamento. Onde ver não basta. E talvez nunca tenha bastado.
Não se trata de encontrar sentidos definitivos, mas de sustentar a experiência enquanto ela acontece. Permanecer diante do que não se fecha. Habitar esse intervalo incômodo, porém fértil, entre o que vemos e o que ainda não sabemos nomear.
Talvez seja aí, nesse espaço provisório e instável, que algo realmente novo comece a se esboçar.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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