
por Marlene Polito
Publicado em 04/03/2025, às 16h00
Um “quase” perfeito em Michelângelo
O burburinho dos visitantes preenche a imensa nave da Capela Sistina. Pessoas de diferentes partes do mundo caminham de um lado para o outro, algumas murmuram em idiomas que não compreendo, outras apenas olham para o alto, em silêncio reverente. Sigo o olhar delas e, então, o vejo.
No centro da abóbada, entre cenas e figuras que parecem desafiar os limites do afresco, está o momento exato em que Deus e Adão quase se tocam. Esse “quase” exerce um fascínio particular. Há um pequeno espaço vazio entre os dedos deles. Um sopro de distância. Um limiar entre o divino e o humano, entre a inércia e a consciência.
E ali, naquele breve intervalo, há mistério. A vida de Adão ainda não foi plenamente despertada, mas o instante decisivo se aproxima. A centelha criadora está prestes a ser concedida, mas ainda não. O que há nesse intervalo?
Essa tensão entre dois estados me lembra outra imagem que atravessa os séculos: a de Janus, o deus bifronte, senhor das passagens e das transições.

Na mitologia romana, Janus era invocado em momentos de mudança: o início do ano, a travessia de portas e passagens, o começo de uma nova jornada. Sua imagem, com duas faces voltadas para direções opostas, traz em si a dualidade da existência – olhar simultaneamente para o passado e para o futuro, estar entre o que já foi e o que está por vir. Se Deus e Adão estão separados por um sopro de distância, Janus nos lembra que vivemos constantemente nesse intervalo, sempre entre dois mundos.
Essa tensão aflora no pequeno espaço entre os dedos de Deus e Adão. E é nesse pequeno espaço vazio que a imaginação se instala – uma força essencial que nos arrasta para o que não é, para o que poderia ser, ao mesmo tempo em que nos conecta ao que existe. A imaginação, como a divindade romana, nos mantém nesse limiar constante, sem nunca nos permitir pertencer completamente a um único tempo ou realidade.
Imaginação e arte
Se a imaginação nos mantém nessa fronteira entre o real e o possível, é porque ela é parte essencial da nossa natureza. Adam Zeman, em seu livro The Shape of Things Unseen, reforça essa ideia ao afirmar que a imaginação é nosso birthright humano, um direito de nascimento, resultado da combinação de duas capacidades únicas: o controle cognitivo e a simbolização.
Por meio da simbolização – conceito fundamental na linguagem, na arte e em várias disciplinas – transformamos ideias abstratas em símbolos, uma habilidade que nos torna criativos e define a essência da nossa espécie.
Imaginação e a Dualidade Humana
E esse poder da simbolização se repete em inúmeras obras.
Pensemos, por exemplo, em O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, onde a imaginação se desdobra em visões surreais que transcendem qualquer tempo ou realidade.

No painel central, em particular, vemos figuras que flutuam dentro de bolhas transparentes, sugerindo a fragilidade dos devaneios; corpos em fusão com elementos da natureza, como se estivessem se dissolvendo na própria criação.
Se Michelangelo capturou o instante do despertar da consciência em A Criação do homem, Bosch, em O Jardim das Delícias Terrenas, nos mostra a plenitude desse despertar – e seus desdobramentos, que desafiam a lógica e a ordem.
A Disney!? – Imaginação na Cultura Pop
Essa dualidade da imaginação – entre nos conectar ao sublime e nos afastar da realidade – não é apenas um tema da arte clássica. Ainda hoje, a cultura popular celebra esse impulso paradoxal. A Disney, por exemplo, transformou a imaginação em um dos pilares de sua narrativa.
No parque Epcot, uma das atrações mais icônicas é Journey Into Imagination, uma viagem sensorial que convida os visitantes a explorarem sua criatividade sem limites. Ali, a imaginação é apresentada como um portal para mundos impossíveis, reforçando a mesma ideia que atravessa as grandes obras artísticas: o ser humano não apenas vive no presente, mas também no que projeta, sonha e simboliza.

De Michelangelo a Bosch, de Janus à Disney, seguimos oscilando entre o real e o imaginado. Criamos histórias, mitos e imagens para dar sentido ao que não conseguimos tocar, entender ou explicar – e talvez seja exatamente isso que nos torna humanos.
Afinal, nossa imaginação não é apenas parte essencial do que somos; mais do que isso, ela nos mantém eternamente à beira daquilo que podemos ser.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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