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Um país em declínio

Donald Trump e Kamala Harris. - Imagem: Reprodução | Brasil De Fato
Donald Trump e Kamala Harris. - Imagem: Reprodução | Brasil De Fato
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 06/11/2024, às 08h06


Independentemente de quem vença as próximas eleições norte-americanas, um fato é evidente: os Estados Unidos são uma potência em declínio. Se Kamala Harris for eleita, sua presidência será provavelmente fraca. Como uma política de perfil mais à esquerda, Harris, que afirma representar uma nova geração apesar de uma diferença de apenas quatro anos em relação a Barack Obama, teve uma atuação discreta na Vice-Presidência. Não fosse a idade avançada de Joe Biden que a catapultou à disputa presidencial sem o escrutínio das primárias democratas, dificilmente ela teria alcançado a indicação majoritária do Partido Democrata.

Por outro lado, uma eventual reeleição de Donald Trump – conhecido por sua postura transacional e pela defesa intransigente do “America First” – pode colocar os EUA em rota de colisão com o Sul Global e seus aliados europeus. Seu estilo protecionista reduz a cooperação e a integração mundial, além de frear a globalização, um fenômeno que trouxe enormes benefícios globais nas últimas décadas.

Historicamente, os EUA se beneficiaram das duas Grandes Guerras do século XX, o que lhes permitiu consolidar-se como a maior potência global, com liderança em áreas econômicas, políticas, militares e culturais. Esse status permitiu que o país moldasse a ordem internacional a sua imagem e semelhança, com um sistema institucional alinhado aos seus interesses e capacidade de exercer governança global através de persuasão e dissuasão. Contudo, o século XXI trouxe novos atores à cena global, insatisfeitos com a estrutura vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, os EUA se beneficiaram – e em muitos casos, abusaram – de seu poder, aplicando sanções, iniciando guerras e pressionando outros países a seguirem uma agenda de acordo com seus interesses.

Embora a ordem liberal promovida pelos Estados Unidos tenha gerado avanços significativos para o desenvolvimento global, muitos países sentem-se excluídos dos benefícios dessa ordem, sem possibilidade de ascensão. Um exemplo disso é o G7, que reúne as maiores economias do mundo e, desde sua criação em 1975, nunca expandiu o número de membros, exceto pelo breve período em que incluiu a Rússia.

Essa ordem, liderada pelos Estados Unidos, está agora em declínio. Embora este declínio não seja abrupto, ele ocorre de maneira incremental, afetando principalmente a hegemonia e a capacidade dos EUA de influenciar o mundo. A última Cúpula do BRICS evidenciou o crescente interesse que esse bloco desperta no Sul Global, historicamente excluído de participação mais ativa em fóruns como o G7 e o G20. Originalmente uma iniciativa econômica, o BRICS passou a representar, para seus países fundadores, uma oportunidade de promover uma ordem global mais inclusiva e equitativa. O bloco se fortaleceu, promovendo uma visão multipolar e inclusiva, em clara contraposição ao tradicional domínio ocidental nas principais instituições globais, como as Nações Unidas, o FMI e o Banco Mundial. Reequilibrar o poder global é, hoje, um objetivo essencial para as nações em desenvolvimento.

A China, que se consolidou nas últimas décadas como uma potência com crescente influência na Ásia, África e América Latina, ampliou parcerias comerciais e laços de cooperação, integrando-se de forma cada vez mais profunda nas cadeias globais de produção, apesar da oposição dos EUA. Enquanto os EUA impõem sanções e buscam conter a China, o país asiático investe fortemente em tecnologia, infraestrutura, comércio eletrônico e defesa, atraindo a atenção do Sul Global com seu modelo de crescimento e desenvolvimento sem precedentes.

No âmbito doméstico, os EUA também enfrentam desafios significativos, como o endividamento crescente, uma infraestrutura envelhecida e uma base industrial em declínio. Embora o PIB continue elevado, a desigualdade econômica aumentou consideravelmente. Grandes corporações e elites financeiras acumulam uma parcela significativa da riqueza, enquanto uma parcela crescente da população enfrenta dificuldades para acessar serviços básicos, como saúde e educação. A desindustrialização levou à perda de milhões de empregos no setor manufatureiro, minando a estabilidade econômica de várias regiões e tornando o “Sonho Americano” um ideal cada vez mais distante para muitos.

A fragmentação social e política também é evidente. A polarização extrema observada nas últimas eleições revelou um país onde a troca de ideias perde espaço para o “assassinato de reputações”, agora moeda comum na política americana. Esse ambiente afeta diretamente a percepção global de estabilidade nos EUA, refletindo-se em uma política externa desgastada por envolvimentos em guerras caras e controversas, como no Afeganistão e no Iraque. A atuação recente na Ucrânia e em conflitos como o da Gaza gerou críticas à política externa americana, que passou a depender mais da força do que da diplomacia para atingir seus objetivos. Ademais, quando instituições globais, criadas sob liderança dos EUA, agem contra seus interesses, o país adota uma postura de ataque à sua legitimidade, o que enfraquece ainda mais sua posição.

A dificuldade dos EUA em se adaptar à nova realidade multipolar é preocupante, principalmente quando buscam, com vigor, conter o crescimento de novas potências globais. O país precisa entender que o unilateralismo já não é sustentável. Potências ascendem e declinam – esse é o ciclo da história.


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