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O perigo de Washington

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 14/01/2026, às 09h38


Donald Trump gosta de repetir — quase como uma fórmula de campanha — que “parou guerras”. E, de fato, seu governo tenta capitalizar acordos e cessar-fogo pontuais como prova de eficácia geopolítica. O problema é que Trump não construiu paz: ele expandiu instabilidade. Sua política externa não é orientada por um conceito de ordem, nem por uma visão de governança internacional, mas por impulsos táticos voltados à audiência doméstica, ao financiamento político e à exibição performática de força.

O resultado é um paradoxo perigoso: enquanto reivindica desescalada em teatros específicos, Trump elevou o grau de incerteza global para níveis raramente vistos em tão pouco tempo. Ele não apenas tensiona adversários estratégicos; ele erode os mecanismos que impedem que tensões virem conflito aberto. Ao substituir previsibilidade por improviso, e diplomacia por coerção, Trump torna a instabilidade não um acidente — mas um método.

O ponto mais grave, porém, não está no estilo; está no conteúdo. A estratégia de Trump é essencialmente imperial: opera por pressão, não por legitimidade; por ultimatos, não por convergência. E isso tem um custo civilizacional: desmoraliza a ONU, organização cuja criação os próprios Estados Unidos lideraram como pilar institucional do pós-guerra. Trump não trata as Nações Unidas como fórum indispensável de diálogo, mas como obstáculo à liberdade de ação de Washington. Não é apenas desprezo: é desgaste deliberado do multilateralismo, como se a ordem internacional fosse um incômodo administrativo e não uma construção histórica que evitou guerras sistêmicas por décadas.

Se o governo Trump considera que não deseja mais conviver com a ONU — e com as restrições que um sistema multilateral impõe à arbitrariedade — então a conclusão lógica é óbvia: não faz sentido a ONU permanecer em Nova Iorque. Uma sede localizada na principal capital do unilateralismo moderno tornou-se, hoje, uma contradição política. A ONU não foi criada para “resolver a humanidade”, mas para impedir que a humanidade volte ao estado de barbárie estratégica: ela é, antes de tudo, um instrumento civilizacional de contenção.

É nesse contexto que se deve interpretar a ação recente mais disruptiva: a operação norte- americana na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, celebrada como demonstração de poder hemisférico e enviada como recado direto contra China e Rússia. O problema não é apenas jurídico ou moral; é estrutural. Quando o presidente da maior potência militar do planeta normaliza operações dessa natureza, inaugura um precedente corrosivo que destrói a segurança coletiva. O mundo entende a mensagem: se Washington pode sequestrar chefes de Estado sob justificativas próprias, por que outros atores — regionais ou globais — não poderiam agir de modo semelhante em seus entornos?

Trump, consciente ou não, estimula a multiplicação de atores que buscam “autonomia agressiva”: potências médias, rivais regionais e governos pressionados concluem que a era das regras está em colapso. O que surge não é uma ordem pós-americana; é uma ordem pós- normativa, na qual o custo do oportunismo cai e a tentação do uso da força sobe.

Um efeito paralelo, de natureza econômica, que costuma ser subestimado: a política trumpista incentiva a desdolarização e a desindustrialização local. Ao instrumentalizar sanções, tarifas, coerção financeira e ameaças extraterritoriais como política de rotina, Trump reafirma o dólar — que deveria ser símbolo de confiança e estabilidade — como arma política. E quando uma moeda vira arma, países começam a buscar alternativas. Essa corrosão de confiança empurra governos a diversificarem reservas, adotarem mecanismos de liquidação fora do sistema tradicional e fortalecerem arranjos regionais. Ao mesmo tempo, a lógica de choque permanente e imprevisibilidade derruba investimentos produtivos, fragmenta cadeias de valor e desorganiza estratégias industriais nacionais, sobretudo nas economias em desenvolvimento, que ficam presas entre pressões de alinhamento e riscos de retaliação.

Há também um componente temporal: Trump é presidente de um mandato e corre o risco real de se tornar um pato manco no próximo ano, diante da possibilidade de perder capacidade legislativa e enfrentar oposição renovada. Essa fragilidade gera incentivos à imprudência: ações rápidas, dramáticas e desestabilizadoras — não por estratégia de Estado, mas por urgência eleitoral e sobrevivência política.

Em resumo: antes se dizia que Taiwan era o ponto mais perigoso do planeta. Hoje, Trump conseguiu algo mais grave: transformou Washington, DC em um epicentro de risco sistêmico, capaz de irradiar instabilidade sobre todos os continentes — com uma caneta, uma ameaça, um decreto, ou um impulso.


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