
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 18/02/2026, às 08h25
A desglobalização tornou-se, nos últimos anos, um conceito confortável no discurso político e econômico do Ocidente. Apresentada como resposta inevitável a fragilidades produtivas, rivalidades geopolíticas e tensões sociais internas, ela funciona menos como diagnóstico e mais como álibi. Confunde-se vontade política com realidade econômica. O que está em curso não é o fim da globalização, mas sua reconfiguração sob pressão — conduzida por subsídios, barreiras seletivas, reshoring e tentativas de desacoplamento que substituem competitividade por coerção.
Essa aposta repousa sobre uma ilusão recorrente: a crença de que estruturas industriais desmontadas ao longo de décadas podem ser recompostas por decisão administrativa. Escala não se decreta. Eficiência não se legisla. Densidade produtiva é resultado de tempo, coordenação e continuidade. Economias complexas não se reorganizam por impulso político. Quando o fator tempo é ignorado, estratégia transforma-se em improviso.
Essa leitura torna-se ainda mais frágil quando aplicada à China. Projeções indicam que, até o final da década, o país deverá concentrar cerca de 45% da produção manufatureira global, enquanto os Estados Unidos permanecerão em torno de 11%. Trata-se de uma diferença estrutural, não conjuntural. Ela reflete um modelo construído com paciência: planejamento de longo prazo, coordenação entre Estado e setor produtivo, produção em larga escala e aceitação consciente de margens mais estreitas em troca de volume, estabilidade e controle sistêmico.
O contraste com o Ocidente é evidente. A financeirização, a obsessão por retornos extorsivos trimestrais e a eficiência contábil corroeram a profundidade industrial. Quando um único ator se aproxima de metade da capacidade manufatureira global, sua lógica de custos, escala e investimento redefine os parâmetros do sistema. Diante disso, expressões como friend-shoring ou “autonomia estratégica” funcionam menos como soluções e mais como linguagem de conforto. Slogans não substituem escala.
É nesse ponto que a economia política se encontra com a política da incerteza. A presidência de Donald Trump tem marcado uma inflexão qualitativa no papel internacional dos Estados Unidos. O país deixou de atuar como gestor imperfeito da ordem global e passou a operar como vetor central de risco sistêmico. A imprevisibilidade foi normalizada. Acordos tornaram-se descartáveis. Tarifas, sanções e pressões públicas substituíram coordenação e previsibilidade.
Quando a política externa se converte em extensão da política doméstica, a segurança internacional deixa de ser um bem coletivo e passa a funcionar como contrato revogável. Aliados tratam garantias como mercadorias instáveis. Adversários leem compromissos como blefes. Países médios constroem redundâncias estratégicas porque não podem depender do humor do centro. A pergunta central deixa de ser “qual é a regra?” e passa a ser “qual será a próxima decisão de Washington?”.
A instrumentalização do dólar e do sistema financeiro acelerou esse processo. Ao transformar sua moeda em instrumento de coerção, os Estados Unidos estimulam a busca por alternativas. A desdolarização emerge não como gesto ideológico, mas como cálculo prudente. Reduzir vulnerabilidades tornou-se racional.
Para o Brasil e o Sul Global, a lição é inequívoca. O multilateralismo continua relevante, mas não pode servir de disfarce para a passividade. Em um mundo mais fragmentado, no qual poder econômico, tecnológico e financeiro voltou a organizar hierarquias, países sem margem estratégica tendem a perder autonomia decisória.
A desglobalização, assim como a política da incerteza que a acompanha, não oferece soluções — apenas adiamentos. A globalização não desapareceu; ela mudou de forma. A questão central não é se o mundo se integrará menos, mas quem terá capacidade estratégica para moldar essa integração. Os demais se limitarão a reagir, sempre tarde demais, a uma ordem internacional definida por outros.

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