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Capitalismo, Tempo e Escala

Capitalismo, Tempo e Escala - Imagem: Reprodução / Pexels
Capitalismo, Tempo e Escala - Imagem: Reprodução / Pexels
Marcus Vinícius de Freitas

por Marcus Vinícius de Freitas

Publicado em 18/12/2025, às 09h37


O debate econômico contemporâneo costuma explicar a ascensão da China a partir de categorias convencionais: custos mais baixos, subsídios estatais ou vantagens competitivas artificiais. Essa leitura, embora recorrente, ignora o elemento mais decisivo da transformação em curso: a diferença estrutural de temporalidade entre modelos de capitalismo. O desafio colocado pela China não é apenas industrial ou tecnológico, mas profundamente econômico e conceitual.

O capitalismo chinês opera a partir de três princípios centrais: margens baixas, horizonte de longo prazo e escala. Esses elementos não são escolhas conjunturais, mas pilares sistêmicos. Empresas chinesas aceitam retornos menores no curto prazo porque sua lógica privilegia permanência, acumulação gradual de capacidades produtivas e consolidação de mercados ao longo do tempo. O lucro não desaparece; ele é adiado, distribuído em horizontes mais amplos e ampliado pela escala.

O capitalismo ocidental seguiu trajetória oposta. Nas últimas décadas, estruturou-se em torno de margens elevadas, retorno rápido sobre o investimento e forte financeirização (com lucros extorsivos, muitas vezes). O desempenho empresarial passou a ser medido por resultados trimestrais, resposta imediata dos mercados e maximização de dividendos no curto prazo. Esse modelo funcionou enquanto o Ocidente concentrou os principais polos industriais globais. Hoje, ele revela limites cada vez mais evidentes.

As projeções indicam uma mudança estrutural na geografia da produção. Estimativas da United Nations Industrial Development Organization (UNIDO), amplamente citadas em análises especializadas, apontam que, mantidas as tendências atuais, a China poderá responder por cerca de 45% do valor adicionado manufatureiro global até 2030, enquanto a participação dos Estados Unidos cairia para aproximadamente 11%. Trata-se de uma transformação sem precedentes na economia mundial, com implicações profundas para competitividade, cadeias globais de valor e modelos de desenvolvimento.

Nesse contexto, a escala deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição de sobrevivência. Em um sistema no qual um único país se consolida como o principal eixo manufatureiro do mundo, não há viabilidade econômica para modelos baseados em mercados fragmentados, margens elevadas e produção de alto custo. Sem escala, torna-se impossível sustentar investimentos, diluir custos e competir em setores industriais estratégicos.

É justamente aqui que emerge a contradição central das atuais políticas econômicas dos Estados Unidos. A estratégia de desglobalização, reshoring e fragmentação das cadeias produtivas parte do pressuposto de que reduzir a interdependência aumentaria a resiliência econômica. No entanto, em um sistema industrial dominado pela China, reduzir escala significa reduzir competitividade. Desglobalizar não fortalece economias de alto custo; ao contrário, isola-as de mercados amplos e aprofunda suas fragilidades estruturais. Desglobalizar é o atestado de óbito do modelo capitalista ocidental.

Para competir com a China, o Ocidente teria de reformar profundamente o seu próprio capitalismo: aceitar margens menores, investir com horizontes mais longos e reconstruir mecanismos de escala, seja por meio de integração regional, coordenação industrial ou mercados ampliados. O paradoxo é evidente: preservar competitividade exigiria abandonar justamente os elementos que definiram o capitalismo ocidental recente.

O conflito econômico central do nosso tempo, portanto, não é entre economias abertas e fechadas, nem entre mercado e Estado. Trata-se de um conflito entre capitalismos organizados em torno de diferentes relações com o tempo. De um lado, um modelo que aceita esperar para vencer pela escala. De outro, um modelo que precisa vencer rapidamente para se justificar. Em um mundo industrialmente organizado pela China, essa assimetria tende a se tornar decisiva. E a convergência para sobrevivência é adaptar-se a um novo modelo de capitalismo.


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