
por Marcelo Emerson
Publicado em 28/11/2024, às 07h39
O tema do fanatismo político continua nos noticiários brasileiros. É importante refletirmos sobre o estrago que as “bolhas digitais” têm causado nas mentes de muitas pessoas.
A estrutura psicofísica da personalidade humana possui algumas dimensões que precisam ser identificadas para entendermos o fenômeno do fanatismo político.
Vamos tomar emprestada a formulação teórica de Philipp Lersch (1898-1972), que foi Catedrático de Psicologia da Universidade de Munique, Alemanha.
Em linhas muito simplificadas, podemos entender da lição de Lersch que toda pessoa possui uma dimensão fisiológica (fome, frio, libido etc.), identificada pelo autor alemão como “fundo vital”, e outra que nos leva aos estados de ânimos, sentimentos e movimentos afetivos.
Juntamente com tais dimensões, temos uma estrutura superior da personalidade, que é o campo próprio da formação do conhecimento, que podemos chamar de mente ou consciência.
A nossa consciência percebe as dimensões fisiológica e emocional e, diante dessa percepção, a mente estrutura a compreensão do mundo.
Diante das experiências do indivíduo é que sua mente organiza a compreensão do mundo e de si mesmo, articulando as vontades e as condutas que ele resolve tomar na vida em sociedade. Este processo forma a personalidade, que é o conjunto de características que tornam cada pessoa única.
A situação psicofísica de cada pessoa é flutuante e, às vezes, há um deslocamento do fundo vital (fisiológico) para a esfera dos sentimentos. Tal fenômeno desorganiza a estrutura superior, de modo que há deformação de consciência no sujeito. A pessoa passa a entender o mundo com prevalência dos instintos de sobrevivência e dos sentimentos distorcidos que ele gera (medo, pânico, ódio).
A pessoa tem dificuldade para pensar por si própria e acaba aderindo ao instinto de bando. Há um vínculo emocional que liga aquela comunidade. Há um contágio afetivo que despoja a pessoa daquela estrutura superior de consciência, e a sua visão de mundo passa a ser aquela que o bando lhe fornece. O pensamento individual perde força. Prevalece a instinto de manada.
O sujeito deixa de ter personalidade e se torna apenas um número numa multidão. Ele se torna cada vez mais incapaz de pensar por si próprio e sua vontade fica sujeita aos impulsos irracionais do bando (medo, pânico e ódio).
Temos um agravante: todo esse processo se amplifica e recrudesce em ambientes virtuais, impulsionados por algoritmos de plataformas digitais que prestigiam o sensacionalismo e a limitação de conteúdo aos temas que já são caros ao indivíduo, amplificando mensagens para multidões cada vez mais amplas.
Mensagens que propagam pânico e ódio aos inimigos imaginários ou reais sempre ganharão mais destaque nas plataformas digitais, e na mesma medida atingirão áreas cerebrais que despertam mais atenção e reações emocionais do que mensagens ponderadas pautadas pela razão.
Há uma apropriação oportunista de demandas legítimas da sociedade, embaladas em generalizações enganosas e problematização sensacionalistas, com posterior oferta de soluções simplórias para questões complexas, contaminadas por muitas desinformações deliberadas, tudo impulsionado por algoritmos de plataformas digitais que formam as “bolhas fanatizantes”.
Tal é o processo de fanatismo operado pelas “bolhas digitais” em redes sociais. Saia da bolha! Diga não ao fanatismo!
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