
por Marcelo Emerson
Publicado em 19/02/2026, às 08h35
A recente fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amplamente divulgada em vídeos nas redes sociais, acendeu um alerta que vai além da disputa política. Ao afirmar ser necessário “combater doutrinas” relacionadas ao comportamento e à família — doutrinas que, segundo ele, “eles” já combatem historicamente — o chefe do Executivo não apenas emitiu opinião ideológica. Sinalizou intolerância.
Não se trata aqui de mero embate retórico. Quando um presidente da República fala em “combater” concepções de família, ele toca na estrutura mais sensível da sociedade brasileira. A família monogâmica, fundada na tradição cultural e, para muitos, também na fé cristã, não é um detalhe sociológico. É o modo de vida da maioria da população. Desqualificá-la como doutrina a ser enfrentada revela desprezo por valores que sustentam milhões de lares.
Historicamente, parte das correntes ideológicas identificadas com o espectro da esquerda crítica vê a família tradicional como engrenagem de manutenção da ordem econômica. Essa leitura encontra respaldo clássico em Friedrich Engels, especialmente em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, na qual a instituição familiar é analisada como elemento de consolidação da propriedade privada e, por consequência, do próprio Estado. O problema não está no debate teórico — legítimo em ambiente acadêmico. O problema surge quando tal visão se transforma em discurso político de enfrentamento cultural.
Recentemente, uma escola de samba levou à avenida uma ala que ironizava o modelo familiar tradicional, com personagens portando Bíblias, em tom de deboche. A crítica artística é livre. Mas o escárnio reiterado contra símbolos religiosos e contra a forma de organização familiar majoritária flerta perigosamente com a intolerância religiosa.
Quando o presidente ecoa a necessidade de “combate” a determinadas concepções de família, reforça essa atmosfera de antagonismo cultural. O Estado laico não é Estado antirreligioso. Governar exige prudência, especialmente ao tratar de valores caros à população.
Palavras presidenciais também moldam o imaginário popular e influenciam ações de pessoas que as seguem. E, nesse caso, contribuem para aprofundar divisões e estimular a intolerância contra o modo de ser de milhões de brasileiros. O Brasil precisa de pontes — não de cruzadas ideológicas.
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