
por Marcelo Emerson
Publicado em 04/12/2025, às 09h41
A pressão psicológica sobre os policiais militares é um drama quase silencioso — e definido por uma rotina de alto risco, exigências extremas e um custo emocional que raramente chega ao conhecimento do público. Desde a formação, o aspirante a policial é submetido a treinamentos extenuantes, disciplina rígida e a internalização de protocolos que muitas vezes significam entrar em cenários de violência real. Nas ruas, principalmente em unidades de elite como a ROTA, essa carga se intensifica.
O veterano de ROTA Prokisch descreve essa realidade sem rodeios: “O policial militar ingressa na PM, passa por exames psicológicos, mas com o decorrer do tempo, pelo excesso de trabalho, pela criminalidade que está insuportável, não se consegue mais ter qualquer sossego dentro da viatura. Você não pode pensar na sua vida particular. O policial está sempre alerta e cuidando da própria segurança para que não tome um tiro, uma facada, uma pedrada. E ele ainda tem que cuidar das pessoas que sequer conhece. É bem complicado, porque ele sai do portão da casa dele para fora e está armado e preocupado com a integridade dele e da família.”
Essa atenção constante — que muitas vezes continua mesmo fora do serviço — tem efeitos profundos: “Todo policial fica sempre alerta, até mesmo quando está de folga. O cara que incorpora isso vai levar isso para toda a vida dele. Chega a ser preocupante tanta carga de stress. É comum muitos policiais terem problemas financeiros. Para tirar 30 anos como eu tirei, ele tem que separar a família e a policial; mas nem sempre consegue”, acrescenta Prokisch.
Os estudos já demonstram consequências sérias: depressão, TEPT, ansiedade, irritabilidade, dificuldades de sono, esgotamento e até pensamentos suicidas. Prokisch ecoa essa realidade: “A cobrança é muito grande. Por isso acontecem alguns suicídios, acidentes com viaturas em alta velocidade, devido ao stress que o policial está. É bem difícil dizer que ‘comigo não acontece.”
O sargento Corazza, que também viveu as décadas de 80, 90 e 2000 na ROTA, reforça a dimensão emocional dessa vivência: “É ambiente de guerra. Nós vivemos a guerra urbana. Eu reformei há anos e eu sonho que estou na ROTA até hoje. A cabeça da gente não é igual à de um paisano que trabalhou numa empresa. Nada contra isso, mas é diferente. É muita agitação, muito estresse, muita violência. A gente lida com a morte com naturalidade, mas isso não é bom para a cabeça de um ser humano.”
Ele revela a dificuldade de desconectar-se: “Às vezes minha mãe falava que eu estava de folga e eu me isolava. Ficava trancado no quarto um dia inteiro. Não falava com ninguém. Eu me dediquei tanto à ROTA e à Polícia Militar que fui ter minha filha com quase 50 anos.”
Essa transição — do confronto armado ao cotidiano doméstico — é um dos maiores desafios. No dia seguinte a um confronto, o policial precisa brincar com a filha no parque, sair para jantar com a esposa ou discutir as contas de casa. O corpo está presente, mas a mente permanece em alerta, em outro cenário, em outro estado emocional.
Se queremos policiais capazes de proteger, precisamos garantir que eles próprios não sejam consumidos pelo peso de sua missão. O país que espera tranquilidade deve, antes de tudo, cuidar de quem vive diariamente à beira do caos.
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