O idealizar João Rubens abre as portas para o Diário de São Paulo e explica como será a edição do Hack Town 2025

por Marauê Carneiro
Publicado em 21/07/2025, às 08h31
Santa Rita sempre foi uma cidade muito viva. Apesar de pequena, sempre teve um ambiente ativo, com eventos rolando o tempo todo — de tecnologia a música, de empreendedorismo a cultura popular. Na época em que o HackTown começou a se desenhar, eu e o Marcos Davi, também fundador, estávamos muito envolvidos com tudo isso. Organizávamos eventos como Startup Weekend, TEDx Inatel, hackathons, entre outros. O Marcos, inclusive, tinha uma startup incubada aqui na cidade.
Em paralelo, o Carlos Henrique Vilela tinha voltado pra cá depois de uma longa trajetória na publicidade em São Paulo e BH. Ele estava trabalhando como executivo numa empresa de tecnologia local e, em 2014, teve a chance de ir ao SXSW. Voltou impactado com o formato do festival e com uma vontade clara: conectar os movimentos que já aconteciam aqui e transformar isso num grande momento. Algo que não só atraísse gente de fora, mas que também valorizasse quem já fazia acontecer por aqui.
A gente se conectou nesse ponto: provocar algo diferente, misturar mundos, tirar as coisas dos palcos tradicionais e trazer pras ruas, pros bares, pras casas. E assim nasceu o HackTown — dessa junção de vontades, sonhos e da certeza de que Santa Rita merecia um festival à altura do que ela já era.
Acho que o HackTown virou um catalisador. Ele conecta mundos que normalmente não se encontram. E também aprofunda conexões entre pessoas que já se conhecem, mas que, dentro da rotina, não têm tempo ou espaço para se encontrar de verdade. Aqui, você vê um pesquisador conversando com um artista, um investidor trocando ideia com um estudante, uma marca gigante ouvindo um criador independente.
E o mais legal é que tudo isso acontece num ambiente mais humano, mais imersivo, mais espontâneo. Já vi negócios nascendo em balcões de bar, parcerias fechadas em lugares improváveis, e muita gente indo embora com a cabeça virada. Mostramos que é possível inovar com profundidade fora dos grandes centros, sem abrir mão do afeto e da escuta.
Foram (e são) muitos. Um dos maiores é fazer tudo isso funcionar numa cidade pequena, respeitando o cotidiano de quem vive aqui. Lidamos com mais de mil palestrantes por edição, dezenas de espaços simultâneos, que não são centros de convenções, mas casas, escolas, cafés, praças.
Já a logística de credenciamento, mobilidade, som e segurança precisam funcionar sem travar a cidade e, ao mesmo tempo, proporcionar uma experiência incrível para quem participa. Fazemos questão que o evento seja parte da cidade, não algo apartado dela. E tem o desafio da hospedagem, que nos obriga a buscar soluções criativas em Santa Rita e parcerias com cidades vizinhas.
Mas talvez o maior desafio seja manter a essência. É fácil cair na tentação de padronizar à medida que o evento cresce. A gente trabalha todos os anos para manter o HackTown autêntico, poderoso, com alma e sempre surpreendente.
Começamos em 2016 com menos de 10 bares com palestras, algumas dezenas de atividades e uma ideia na cabeça. Apareceram 750 pessoas. Em 2024, tivemos mais de mil atividades, 15 mil participantes credenciados e mais cerca de 15 mil pessoas nas atividades abertas, principalmente voltadas para a comunidade local e cidades vizinhas. Tivemos ativações com grandes marcas, trilhas temáticas e impacto estimado de mais de R$30 milhões na economia regional.
Mas o que mais me orgulha é que, mesmo crescendo, conseguimos manter o clima de cidade pequena, de proximidade, de conversa com olho no olho. Ainda é possível sair de uma palestra e cruzar com o palestrante tomando café na praça. Isso, pra mim, é evolução com coerência.
Nosso objetivo é criar um ambiente onde ideias, pessoas e mundos diferentes se cruzem e se transformem. A gente quer provocar, no melhor sentido da palavra. Queremos ser um ponto de encontro e troca para quem está criando o futuro com propósito, sensibilidade e coragem.
Queremos ser palco para grandes projetos e profissionais consagrados, mas também revelar novos nomes, projetos escondidos pelo Brasil e por países vizinhos. Ser uma vitrine viva daquilo que muitas vezes não aparece nos grandes centros. E mostrar que inovação também é feita de cultura, música, diversidade, poesia e impacto social.
Nosso processo de curadoria é amplo, ativo e diverso. Recebemos propostas de perfis muito variados: CEOs, estudantes, criadores independentes, empreendedores sociais, profissionais em ascensão, e tratamos tudo com o mesmo cuidado.
Parte da curadoria é feita de forma ativa, com apoio de pessoas super conectadas ao HackTown. Outra parte vem do nosso programa de submissão de propostas, que recebe ideias de todo o Brasil e também de países da América Latina.
A gente estrutura trilhas temáticas, sim, mas sempre deixa espaço para o inesperado, para o fora da curva. E o fato de tudo acontecer numa cidade pequena já obriga todo mundo a sair da bolha. Isso muda completamente o jogo.
A gente desenha o evento para que os encontros aconteçam. Os conteúdos são importantes, e a gente cuida para que cada palestra e painel tenha a alma do HackTown. Mas muita coisa rola nos intervalos, nas calçadas, nas casas, nos bares.
Já ouvi história de pitch feito no meio da rua que virou investimento. Gente que se conheceu no festival e depois montou empresa junto. Artistas que tocaram nos nossos showcases e depois foram parar em grandes festivais. Já teve até casamento que começou ali. O ambiente é horizontal, aberto, cheio de estímulo, e isso naturalmente gera ideias, projetos e conexões.
Tem muitas. Startups que conseguiram investimento, colaborações entre marcas e criadores, projetos sociais que ganharam fôlego. Mas duas histórias na música me marcaram muito: a banda O Grilo, que se apresentou no HackTown antes de estourar e logo estava em palcos como Lollapalooza e Rock in Rio; e a Marina Sena, que fez um showcase no festival poucos meses antes de explodir nacionalmente.
Mas o que mais me toca são os relatos pessoais. Gente que mudou de rumo, que reencontrou propósito, que teve uma virada de chave ali. O impacto do HackTown nem sempre é visível, mas é real — e continua agindo mesmo depois que o festival acaba.
A gente ajudou a mostrar que o interior pode, sim, ser palco de grandes coisas. Santa Rita já tinha uma base tecnológica muito forte com o Inatel e a ETE FMC. O HackTown chegou pra amplificar tudo isso e promover uma troca mais ampla com gente de todo canto.
Um exemplo simbólico disso é a Casa Dinamarca — criada por empreendedores e empresas dinamarquesas que participam do HackTown desde 2023. É uma prova do alcance do festival além das fronteiras do Brasil.
Além disso, temos um programa de inclusão muito forte. Oferecemos ingressos a preços simbólicos para pessoas de comunidades menos favorecidas, professores da rede pública e outras iniciativas sociais. A cidade inteira se transforma nesses dias — e, pra mim, essa é a melhor forma de gerar impacto: criando ambiente, ampliando acesso e provocando mudança real.
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