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Superbactérias: o risco invisível que ameaça pacientes, hospitais e a economia

Superbactérias: o risco invisível que ameaça pacientes, hospitais e a economia - Imagem: Reprodução / Freepik
Superbactérias: o risco invisível que ameaça pacientes, hospitais e a economia - Imagem: Reprodução / Freepik
Mara Machado

por Mara Machado

Publicado em 02/09/2025, às 10h06


Por mais de duas décadas, especialistas vêm alertando para um inimigo que se multiplica silenciosamente dentro dos hospitais: as superbactérias. Agora, um levantamento inédito do Instituto Qualisa de Gestão (IQG) expõe, com números e evidências, como falhas estruturais e de gestão estão abrindo caminho para que esses microrganismos resistentes ganhem força no Brasil.

O estudo analisou 104 hospitais públicos e privados, em todas as regiões do país, e encontrou uma contradição preocupante. Embora 94,7% das instituições digam ter uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (PCIH), quase um quarto (21,9%) não possui protocolos adequados para ajustar a dosagem de antibióticos — um passo básico para evitar uso excessivo ou ineficaz desses medicamentos. Em outras palavras: a porta de entrada para a resistência microbiana está escancarada.

A situação se agrava quando olhamos para outros dados: nenhuma das unidades pesquisadas conta com comitês de Antimicrobial Stewardship, responsáveis por supervisionar e racionalizar o uso dos antibióticos, e nenhuma adota protocolos formais para o descarte seguro desses medicamentos ou o tratamento de seus resíduos. Isso significa que, além de colocar pacientes em risco, muitos hospitais estão liberando substâncias perigosas no meio ambiente, contaminando água, solo e até alimentos.

E o preço dessa negligência é alto. Estima-se que, no Brasil, 34 mil pessoas morram todos os anos por infecções resistentes, segundo dados do Ministério da Saúde. Em todo o mundo, o número pode passar de 10 milhões de mortes anuais em 2050, segundo a OMS, sendo que o número pode ser muito maior, se considerada as mortes indiretas, como infecções após cirurgias ou quimioterapia.

Todos os indicadores reforçam a urgência de políticas públicas robustas. Precisamos combater o uso indiscriminado de antibióticos, proteger a saúde da população e garantir a sustentabilidade do setor.

O relatório também identifica responsabilidades claras. No nível estratégico, a ausência de priorização institucional para o uso racional de antimicrobianos. No campo técnico e legal, o descumprimento de normas obrigatórias, como a Portaria nº 2616/98, que exige comissões de infecção ativas e boas práticas clínicas. E, no aspecto social e político, a omissão diante de uma crise que ameaça o sistema de saúde e a economia.

O que fazer, então? O estudo trouxe recomendações bem claras. Por exemplo, adotar comitês de Antimicrobial Stewardship, criar protocolos para descarte e tratamento de resíduos, monitorar o impacto ambiental dos antimicrobianos, estabelecer indicadores públicos e alinhar as políticas nacionais às diretrizes da Organização Mundial da Saúde. Em resumo: transformar o discurso em ação.

Porque, enquanto o problema seguir invisível aos olhos da gestão, a resistência microbiana continuará crescendo — e cobrando vidas, recursos e a confiança no nosso sistema de saúde.


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