Diário de São Paulo
Siga-nos
COLUNA

Saúde mental na linha de frente: cuidar dos profissionais é cuidar dos pacientes

No Dia Mundial da Saúde Mental, a importância de discutir a saúde mental como parte essencial da saúde pública é mais evidente do que nunca. - Imagem: Reprodução | Agência O Globo
No Dia Mundial da Saúde Mental, a importância de discutir a saúde mental como parte essencial da saúde pública é mais evidente do que nunca. - Imagem: Reprodução | Agência O Globo
Mara Machado

por Mara Machado

Publicado em 13/10/2025, às 08h38


No último dia 10 de outubro, por conta do Dia Mundial da Saúde Mental, o mundo se voltou para um tema que deixou de ser periférico e se tornou central para a saúde pública: a saúde mental. A data, criada pela Federação Mundial de Saúde Mental em 1992, simboliza a necessidade de enfrentar os tabus que ainda cercam doenças como ansiedade, depressão e burnout. Hoje, não há mais dúvida de que não existe saúde integral sem saúde mental.

O Brasil, infelizmente, ocupa posições de destaque nesse cenário preocupante. Dados da OMS mostram que somos um país com índices muito elevados de transtornos de ansiedade, além de registrar taxas crescentes de depressão. Entre 2013 e 2019, a prevalência de sintomas depressivos praticamente dobrou entre jovens adultos. Após a pandemia, esse quadro se agravou: em 2021, mais de 20% dos brasileiros relataram sintomas de estresse, ansiedade e depressão.

Se a realidade é preocupante para a população em geral, entre os profissionais de saúde ela se torna crítica. Médicos, enfermeiros e equipes de apoio vivem sob constante pressão emocional e jornadas extenuantes. Pesquisas internacionais mostram que até um terço dos médicos experimenta burnout em algum momento da carreira. No Brasil, estudos recentes apontam prevalência ainda maior de estresse, ansiedade e depressão nesse grupo, o que compromete não apenas o bem-estar individual, mas também a qualidade do cuidado aos pacientes.

Um levantamento conduzido pelo IQG (Instituto Qualisa de Gestão) em nove hospitais privados do país revelou perdas de produtividade da ordem de 27% em razão de ausências e presenteísmo — este último marcado por estresse e esgotamento físico e mental. O impacto anual supera R$ 22 milhões apenas nessas instituições, evidenciando que o problema não é invisível, mas plenamente mensurável. Ainda mais alarmante: o risco de erros clínicos chega a ser 2,2 vezes maior em profissionais com alto índice de burnout, um dado que conecta diretamente saúde do trabalhador à segurança do paciente.

Quando falamos em burnout, não falamos apenas de fadiga. Falamos de lapsos de atenção, de decisões equivocadas e de riscos evitáveis que podem comprometer vidas. Cuidar da saúde mental de quem atua na linha de frente não é apenas uma medida de recursos humanos, é uma ação de qualidade assistencial. Cada hora de sono perdida, cada escala mal planejada e cada espaço de escuta negligenciado se converte em vulnerabilidade dentro do sistema de saúde.

Por outro lado, o investimento em saúde mental traz retornos concretos. Organizações que oferecem suporte psicológico, programas de bem-estar e condições adequadas de trabalho observam queda no absenteísmo, maior engajamento das equipes e redução de erros clínicos. São ganhos que transcendem a esfera individual: impactam diretamente a produtividade, a reputação institucional e os resultados financeiros. A gestão hospitalar precisa compreender que saúde mental é um ativo estratégico.

O caminho exige coragem para enfrentar a cultura do silêncio, que ainda faz com que falhas e sintomas de esgotamento sejam ocultados por medo de represálias. É preciso consolidar ambientes de segurança psicológica, nos quais líderes sejam preparados para ouvir, acolher e agir. Essa transformação depende de políticas públicas robustas, mas também da responsabilidade direta de gestores e lideranças em criar culturas institucionais mais humanas.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, a mensagem deve ser clara: zelar pela saúde mental de profissionais de saúde é uma forma de cuidado com o próprio paciente. Não se trata apenas de compaixão, mas de estratégia, segurança e sustentabilidade. Um sistema de saúde de qualidade nasce da capacidade de proteger os seus profissionais, fortalecendo a base sobre a qual repousa toda assistência: pessoas saudáveis cuidando de pessoas.


últimas notícias