A imagem do ídolo amanheceu decapitada.

Redação Publicado em 20/04/2021, às 00h00 - Atualizado às 12h32
A imagem do ídolo amanheceu decapitada.
Foi com essa notícia que os torcedores do Universitario engoliram o café numa manhã de março deste ano. A estátua do máximo goleador do clube, do eterno camisa 9, profanada na madrugada por um grupo ligado à barra do Sporting Cristal.
Era uma retaliação, na verdade. Os rivais cobravam vingança atacando o lugar que antes todos pensavam ser o mais seguro. O corpo rígido do monumento foi o alvo escolhido: o jogador permanecia em pé, pronto para o próximo drible, mas agora separado de sua cabeça. Era o troco recebido por pichações feitas por gente da barra do Universitario nos muros da casa do Cristal.
Todos errados, é claro.

A estátua de Lolo Fernández vandalizada por simpatizantes do Sporting Cristal — Foto: Reprodução
Quem assistiu a final da Libertadores de 2019 disputada no estádio Monumental de Lima, casa do Universitario, em algum momento teve a atenção concentrada na figura de um homem com uma espécie de touca na cabeça desenhada na arquibancada.
Ele é Lolo Fernández, o maior artilheiro na história do Universitario: 345 gols em 397 jogos pelo time e quem dá nome ao estádio da U.
Apesar de aposentado há quase 70 anos e falecido há 25 (1996), o tributo ao ídolo continua intacto e todo agradecimento parece pouco.
Apelidado Cañonero pela potência do chute, Lolo estourava as costuras das redes com a força de seu arremate. Há registros que contam sobre certo jogo, quando um adversário (Prisco Alcalde, do Alianza Lima) cometeu a insensatez de interceptar com a cabeça uma cobrança de falta batida pelo homem que tinha um canhão no lugar da perna. Péssima ideia, claro. O defensor caiu desmaiado no gramado e sofreu uma leve lesão cerebral.
Lolo Fernández foi um jogador de outros tempos, literalmente. Construiu toda a carreira no Universitario. Foram vinte e três anos defendendo o mesmo clube, mas isso não quer dizer que não houvesse quem o tentasse a mudar de camiseta.
Ao longo da carreira recusou ofertas de clubes argentinos, uruguaios e chilenos. Um deles, o Colo Colo, que lhe entregou um cheque em branco para que o próprio artilheiro preenchesse com o valor que desejasse ganhar. Ele sorriu, agradeceu a proposta e devolveu o pedaço de papel: “Só jogo futebol no amor da minha vida, o Unviersitario”, respondeu ao cartola.

O rosto de Lolo em vigília eterna no estádio do Universitario — Foto: Universitario
Em todas homenagens, quadros, pinturas ou estátuas, Lolo costuma ser representado com a inconfundível touca na cabeça.
Vindo de uma zona rural e humilde, ele gostava de jogar com o acessório porque era a forma que escolheu para homenagear a mãe, Doña Raymunda Meyzan, que trabalhava como cozinheira e se preocupava em evitar que os fios de cabelo caíssem na comida que preparava.
Gols contra o grande rival e aposentadoria
Também tinha aquela sorte especial que acompanha um jogador de seu nível. Contra o Alianza Lima marcou 29 vezes em 48 encontros.
Na última partida que jogou, em 1953, curiosamente um clássico desses, Lolo já tinha 40 anos de idade e retornava de uma aposentadoria meio duvidosa. Poucos achavam que ele deveria ter um lugar entre os titulares apesar de seu histórico. O peso dos anos acumulava quilos no corpo do homem que conduziu o Peru ao título do Sul-Americano de 1939.
Em outro golpe de sorte, a mesma que pisca simpática aos mais capazes, uma lesão deixou o titular de fora e Lolo foi escalado entre os onze: “Vou entrar em campo com o entusiasmo que tinha há 20 anos, mesmo que as pernas não sejam mais as mesmas, o coração continua igual”.
Marcou três vezes na vitória por 4 a 2 sobre o Alianza. Carregado pelos torcedores, deu a volta olímpica diante de um estádio que aplaudia não somente o feito conquistado naquela tarde, mas a carreira completa de um dos maiores jogadores peruanos de todos os tempos.
É dele também a melhor média de gols da seleção: foram 24 em 32 jogos, ou seja, 0,75 por partida).
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Lolo foi carregado pelos torcedores e deu a volta olímpica em seu último jogo em 1953 — Foto: Universitario
Camisa 9 aposentada nos torneios locais
Em memória do ídolo, o Universitario decidiu aposentar a mítica camisa 9 no campeonato local. As boas energias de Lolo estão reservadas apenas para as noites especiais, datas de Copa.
Na lista de inscritos desta edição da Libertadores será o argentino Enzo Gutiérrez o responsável por carregar todo o peso desse legado goleador.
Enquanto Gutiérrez se esforça por merecer tamanha distinção, o Universitario e seus torcedores se mobilizam para reconstruir a estátua do ídolo.
A campanha “Lolo Monumental” pretende arrecadar fundos para reerguer a imagem do símbolo imponente, um guardião do estádio que leva seu nome.
E já que vão reconstruir a estátua, o plano é que ela seja maior do que a anterior. Segundo informou o Universitario em suas redes sociais, a previsão inicial de entrega está marcado para o dia 20 de maio, data em que se festeja o aniversário de Lolo Fernández.
Ainda que não haja uma escala capaz de reproduzir a importância de Lolo, esse sentimento de preservação da memória e o reconhecimento a quem ajudou a construir a própria história fala muito mais sobre a grandeza de um clube.
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Fonte: GE – Globo Esporte.
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