Evento desta quinta-feira (10) pode marcar um divisor de águas para a empresa de Elon Musk, mas o histórico de promessas não cumpridas gera dúvidas entre investidores e especialistas

por Marina Milani
Publicado em 10/10/2024, às 09h38
A Tesla, liderada por Elon Musk, está prestes a fazer um grande anúncio que pode transformar o futuro da empresa. Na noite desta quinta-feira, a companhia realizará um evento no famoso estúdio da Warner Bros., na Califórnia, para revelar seus planos ambiciosos de introduzir "robotaxis" totalmente autônomos. A expectativa é alta, com muitos comparando o momento ao lançamento do iPhone pela Apple, um marco na história da tecnologia.
Dan Ives, analista da Wedbush Securities e defensor de longa data da Tesla, destacou a importância da ocasião: “Acredito que, em cinco ou dez anos, este evento será visto como o momento ‘iPhone’ da Tesla”. Mas a grande questão permanece: será que Elon Musk finalmente entregará o que vem prometendo há anos?
O que pode ser anunciado?
Os tão esperados "robotaxis" da Tesla devem oferecer viagens sem a necessidade de um motorista humano. Essas novas frotas de veículos autônomos competiriam diretamente com serviços como Uber e Lyft, além de enfrentar a concorrência de veículos sem motorista já em fase de testes de empresas como a Waymo, do Google, e a Cruise, da General Motors.
Musk já mencionou anteriormente a possibilidade de introduzir um modelo específico para esse serviço de robotaxi, o qual ele chama de "Cybercab". Outra grande novidade esperada é o lançamento de um serviço de carona pago que funcionaria de forma semelhante ao Airbnb. Proprietários de Teslas poderiam alugar seus veículos para que outras pessoas usem enquanto estão desocupados, com uma fatia do lucro indo para a Tesla e o restante para o dono do carro.
No entanto, essa promessa não é nova. Nos últimos cinco anos, Musk vem afirmando que a introdução de um serviço de robotaxis estava “logo ali”, mas os avanços na tecnologia e a aprovação regulatória continuam sendo barreiras significativas. Acidentes envolvendo veículos autônomos, como o caso da Cruise, em que um pedestre foi arrastado por 20 metros, mostram o risco que essas novas tecnologias enfrentam na obtenção de aprovação para operações em grande escala.
Promessas não cumpridas
Musk e seus apoiadores continuam insistindo que a introdução dos robotaxis mudará completamente a economia dos transportes, o que poderia levar as ações da Tesla a novos patamares. Eles afirmam que a empresa poderá gerar mais receita com o serviço de viagens do que com a venda de carros, ao mesmo tempo em que atrairá mais compradores que poderão recuperar o valor do veículo alugando-o para corridas.
Entretanto, Musk já fez inúmeras promessas sobre o lançamento de carros totalmente autônomos, mas até agora nenhuma se concretizou plenamente. Apesar de oferecer o recurso “Full Self-Driving” (FSD) como uma opção de $8.000 em seus carros, a Tesla ainda exige que os motoristas permaneçam no banco do motorista, prontos para assumir o controle, mesmo com o FSD ativado.
Durante uma chamada com investidores em julho de 2023, Musk afirmou que esperava ter a direção “sem supervisão humana possivelmente até o final deste ano”, mas logo admitiu: “obviamente, minhas previsões sobre isso têm sido excessivamente otimistas no passado”. Na mesma ocasião, ele se referiu a si mesmo como "o garoto que gritou FSD", mas afirmou acreditar que a Tesla superaria as habilidades humanas até o final do ano.
Os testes independentes, no entanto, contam outra história. Um serviço de testes, o AMCI Testing, descobriu que, em média, os motoristas precisavam assumir o controle dos carros da Tesla a cada 13 milhas dirigidas. Isso significaria três acidentes por hora, um número drasticamente inferior à tecnologia de concorrentes, como apontou o analista Gordon Johnson, crítico de longa data da Tesla.
Expectativas futuras
Mesmo entre aqueles otimistas sobre o potencial futuro da Tesla, muitos acreditam que os carros autônomos ainda estão a anos de distância de uma implementação prática e segura. Gene Munster, sócio da Deepwater Asset Management, afirmou que, embora a Tesla esteja "97% do caminho" para alcançar a autonomia total, essa diferença de 3% ainda representa um grande obstáculo.
"Chegar de 95% ou 97% até 99% é muito difícil. E ainda há a questão de quantos noves os reguladores vão querer ver: 99.9%, 99.999%?", questionou Munster.
Ele estima que levará cerca de dois anos para que a tecnologia atinja o nível necessário, e outros dois ou três anos para obter a aprovação regulatória adequada. Para ele, o grande fator no evento desta quinta-feira será o prazo anunciado por Musk.
"Se for algo que esteja a mais de três meses de distância, os investidores provavelmente reagirão com ceticismo", disse.
Dan Ives concorda, afirmando que este evento representa um "momento decisivo" para Musk e a Tesla. "Ou saímos desse evento com a boca aberta, ou com um simples encolher de ombros", disse o analista.
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