Mais de cem graduações tiveram desempenho insuficiente no Enamed e poderão sofrer cortes de vagas, suspensões e restrições a programas federais

Erika Osti Publicado em 20/01/2026, às 17h52
Quase um terço dos cursos de medicina avaliados no país recebeu desempenho considerado insatisfatório no Enamed 2025, exame aplicado para medir a qualidade da formação médica no Brasil. Ao todo, 107 graduações ficaram nas faixas mais baixas da avaliação e agora devem enfrentar uma série de sanções impostas pelo Ministério da Educação, que vão desde a redução do número de vagas até a suspensão do ingresso de novos alunos. As medidas fazem parte de uma estratégia do governo para elevar o padrão de ensino e garantir que futuros médicos cheguem ao mercado com formação adequada.
O Enamed foi aplicado pela primeira vez em 2025 e avaliou 351 cursos de medicina em todo o país. A prova é obrigatória para estudantes concluintes e funciona como um instrumento de regulação do ensino superior, semelhante ao Enade, mas voltado exclusivamente para a formação médica. A escala de avaliação vai de 1 a 5, e os cursos que ficaram com notas 1 e 2 são classificados como de desempenho insatisfatório.
Dos 107 cursos com avaliação ruim, parte deles está sujeita a punições mais severas. Graduações que receberam a nota mais baixa podem ter o ingresso de novos alunos totalmente suspenso, além de perderem o acesso a programas federais de financiamento estudantil, como Fies e Prouni. Já os cursos com nota um pouco melhor, mas ainda insuficiente, poderão sofrer cortes no número de vagas oferecidas e também enfrentar restrições para participar de programas do governo.
O Ministério da Educação informou que as penalidades variam de acordo com o desempenho de cada instituição. Há cursos que terão redução de 25% ou 50% das vagas, outros que ficarão impedidos de ampliar a oferta e alguns que não poderão abrir novas turmas até que apresentem melhorias comprovadas. Segundo o MEC, o objetivo não é apenas punir, mas forçar uma reorganização do ensino médico, corrigindo falhas estruturais e pedagógicas.
Nem todas as instituições mal avaliadas estão sob a alçada direta do governo federal. Uma parte dos cursos pertence a universidades estaduais ou municipais, que não sofrem sanções diretas do MEC. Nesses casos, caberá aos governos estaduais ou às próprias instituições definir quais medidas serão adotadas, embora a tendência seja seguir parâmetros semelhantes aos federais.
O cenário ganhou um novo elemento após o próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira admitir a existência de inconsistências em dados preliminares usados na avaliação do Enamed 2025. Em ofício enviado a instituições de ensino, o órgão reconheceu divergências entre informações que constavam no sistema e-MEC e dados anteriormente repassados às faculdades, o que gerou questionamentos sobre os cálculos iniciais. Apesar disso, o Inep afirmou que os resultados agora divulgados seguem os critérios estabelecidos na nota técnica do exame e não devem ser alterados, mantendo as sanções previstas para os cursos com desempenho considerado insuficiente.
O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o Enamed será um instrumento permanente de acompanhamento da qualidade dos cursos de medicina. Segundo ele, a avaliação permitirá identificar problemas de forma mais rápida e agir antes que falhas na formação cheguem ao atendimento da população. O governo também promete acompanhar de perto as instituições penalizadas ao longo de 2026, exigindo planos de melhoria e reavaliações periódicas.
Os resultados reacendem o debate sobre a expansão acelerada dos cursos de medicina no Brasil nos últimos anos. Especialistas defendem que o aumento no número de vagas precisa caminhar junto com investimentos em infraestrutura, professores qualificados e campos de prática adequados. Para estudantes e para a sociedade, o Enamed surge como um alerta sobre a importância de garantir qualidade na formação de profissionais responsáveis por cuidar da saúde da população.
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