Uso de cartão de crédito e empréstimos cresce, enquanto dívidas avançam e pressionam o orçamento doméstico

Erika Osti Publicado em 27/04/2026, às 14h12
O custo elevado do crédito continua pesando no orçamento das famílias brasileiras e dificultando o equilíbrio das contas. Dados divulgados nesta segunda-feira (27) pelo Banco Central mostram que, apesar de uma leve queda no mês, os juros cobrados das pessoas físicas seguem em patamar elevado, o que mantém o endividamento em alta e pressiona a renda. Ao mesmo tempo, cresce o uso de modalidades mais caras e de curto prazo, como o cartão de crédito, enquanto a inadimplência avança no acumulado do ano.
Em março, a taxa média de juros no crédito livre para pessoas físicas ficou em 61,5% ao ano. O recuo foi discreto, de 0,4 ponto percentual em relação ao mês anterior, insuficiente para aliviar de forma significativa o bolso do consumidor. Com o crédito caro, muitas famílias continuam recorrendo a alternativas emergenciais para fechar as contas.
O impacto aparece nos indicadores de inadimplência. No total do Sistema Financeiro Nacional, o índice atingiu 4,3% da carteira de crédito em março. Embora tenha havido uma leve queda no mês, o indicador subiu 1 ponto percentual em 12 meses. Entre as famílias, a situação é mais delicada: a inadimplência chegou a 5,3%, com aumento de 1,4 ponto percentual no período de um ano.
O endividamento também segue em trajetória de alta. Em fevereiro, as dívidas das famílias representavam 49,9% da renda acumulada em 12 meses, com avanço tanto na comparação mensal quanto anual. Já o comprometimento da renda com o pagamento dessas dívidas alcançou 29,7%, indicando que uma fatia crescente do orçamento está sendo destinada a quitar parcelas e encargos financeiros.
Mesmo com esse cenário de pressão, o crédito continua em expansão. O volume total de operações no país chegou a R$ 7,2 trilhões em março, com crescimento de 0,9% no mês. As famílias respondem por R$ 4,5 trilhões desse total, com alta de 10,9% em 12 meses, mostrando que o consumo segue sustentado, em grande parte, pelo acesso a financiamentos.
No crédito livre às pessoas físicas, o saldo atingiu R$ 2,5 trilhões. O avanço foi impulsionado principalmente pelo aumento do uso do cartão de crédito à vista, pelo crédito consignado para trabalhadores do setor privado e pelos financiamentos de veículos. Já o crédito direcionado, que inclui linhas com regras específicas, somou R$ 2 trilhões, com crescimento mais moderado.
No panorama mais amplo, o crédito total ao setor não financeiro chegou a R$ 21 trilhões em março, equivalente a 162,3% do Produto Interno Bruto. Apesar de uma leve retração no mês, o volume acumulado cresceu mais de 11% em 12 meses, indicando expansão relevante do financiamento na economia.
O conjunto dos dados revela um cenário de dependência do crédito em meio a juros ainda elevados. Para as famílias, isso significa menos espaço no orçamento, maior risco de atraso nas contas e dificuldade crescente para sair do endividamento.
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