Síndrome metabólica é o equivalente a uma tempestade perfeita que pode levar sua vida a pique: é quando a pessoa sofre de hipertensão, diabetes e sobrepeso,

Redação Publicado em 25/09/2018, às 00h00 - Atualizado às 11h02
Síndrome metabólica é o equivalente a uma tempestade perfeita que pode levar sua vida a pique: é quando a pessoa sofre de hipertensão, diabetes e sobrepeso, condições que interagem entre si com prognósticos desfavoráveis para o paciente. Normalmente, são exames independentes que fecham esse diagnóstico, mas há um capaz de apontar os indícios da conjugação desse trio: ele afere a velocidade da onda de pulso e indica o grau de envelhecimento, ou rigidez, das artérias. O assunto parece difícil, mas tive a ajuda inestimável do médico José Geraldo Mill, professor de fisiologia da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Ele é um dos coordenadores do Projeto ELSA-Brasil, que tem o apoio do Ministério da Saúde e conta com a participação de seis universidades.
O ELSA (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto) teve início em 2008 e, durante 25 anos, vai acompanhar mais de 15 mil adultos, entre 35 e 74 anos, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Espírito Santo. Seu principal objetivo é determinar os fatores que contribuem para o surgimento das doenças crônicas na população brasileira. Como essas enfermidades estão relacionadas à idade, o ELSA também tem como meta estabelecer padrões de referência sobre o envelhecimento da nossa população. Sem uma iniciativa como essa, continuaríamos a utilizar dados de outros países, que não correspondem à nossa realidade. “Os dados de hoje predizem as doenças no futuro”, explica o professor. “Através deles, podemos conhecer a história das doenças e identificar seus fatores predisponentes. Acompanhar esses indivíduos por 25 anos vai nos dar a oportunidade de enxergar toda a trajetória da vida adulta”, acrescenta.
O doutor Mill esclarece um conceito importante, que passa despercebido pela maioria das pessoas, sobre como o organismo envelhece: “embora a idade seja um fator inexorável, o envelhecimento não é uniforme em todo o corpo. Um bom exemplo é a pele, nosso maior órgão. Em algumas pessoas, ela envelhece mais rapidamente, enquanto outras parecem mais jovens. O mesmo acontece com os órgãos internos, que envelhecem em diferentes cursos temporais, relacionados a fatores genéticos e ao estilo de vida”. É aí que entra o envelhecimento das artérias e suas consequências, parte do amplo escopo de mapeamentos do ELSA.
Os pesquisadores avaliam a rigidez das artérias, que vão perdendo sua elasticidade com o passar do tempo. “As grandes artérias são muito ricas em fibras elásticas, que vão sendo substituídas por fibras colágenas conforme envelhecemos. Realizamos um exame não invasivo no qual medimos a distância entre dois pontos, um na região do pescoço e outro na virilha. Em seguida, captamos a onda de pulso nessas duas regiões e calculamos a defasagem temporal entre um ponto e outro. A velocidade aumenta quanto mais rígida estiver a artéria. Trata-se de um preditor para complicações futuras e mortalidade”, afirma o pesquisador. Vale dizer que não se trata de medir o fluxo sanguíneo. O que o aparelho – que pode ser um tonômetro ou um sensor de pulso – mede é a distensão ou deformação do vaso que carrega o sangue. Ao envelhecer, ele se enrijece e, numa imagem bem simples, poderia ser comparado a um cano que encurta um percurso que deveria ser mais sinuoso.
Para estabelecer os valores de referência para a velocidade de onda de pulso, foi selecionado um grupo específico de participantes do ELSA: indivíduos que nunca tivessem fumado, que apresentassem pressão e peso normais, que não fossem diabéticos e não estivessem tomando remédios. Não foi fácil. “Entre os 15 mil participantes, 8 mil tomavam pelo menos um medicamento de uso contínuo. Queríamos uma amostra saudável para criar valores de referência brasileiros. Não há tratamento para a rigidez arterial, mas é possível iniciar ações de prevenção para retardar esse envelhecimento. O exercício é a primeira delas, porque age diretamente prevenindo hipertensão, o diabetes e o sobrepeso”, contou o médico.
O exame de velocidade de onda de pulso já é recomendado pela Sociedade Europeia de Hipertensão desde os anos de 1990, mas ainda não foi incorporado à nossa prática clínica. Um dos motivos é o preço: o equipamento utilizado no ELSA custou US$ 6 mil (quase R$ 25 mil), valor que foi diluído depois de ser utilizado em 10 mil pessoas. O outro depende de se conhecer o que seria uma velocidade de onda de pulso “normal”, o que deverá ocorrer com os valores que serão estabelecidos pelo ELSA. “O mesmo aconteceu com a pressão arterial. Durante muitos anos se sabia que ter pressão alta não era bom, mas somente depois de se chegar aos atuais valores de referência é que o uso desse exame se consolidou”, conclui o doutor Mill.
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