Diário de São Paulo
Siga-nos
COLUNA

Até onde pode ir a queda de braço entre Estados Unidos e China? Quem ganha e quem perde?

A relação entre as duas potências se transforma, enquanto a China se prepara para enfrentar os desafios impostos pelos EUA. - Imagem: Reprodução | ChatGPT
A relação entre as duas potências se transforma, enquanto a China se prepara para enfrentar os desafios impostos pelos EUA. - Imagem: Reprodução | ChatGPT
Dennis Munhoz

por Dennis Munhoz

Publicado em 14/04/2025, às 07h39


Apesar de ser promessa de campanha de Donald Trump, quase ninguém imaginava que o aumento das tarifas seria tão elevado e com tantas repercussões dentro e fora dos Estados Unidos. Quando foi eleito em 2016, ele também alterou algumas regras de importação — principalmente com a China — buscando uma negociação mais favorável, mas nada comparável às medidas atuais.

O momento era outro e a China também. Naquela ocasião, Xi Jinping não tinha tanta força e precisava organizar melhor sua posição interna e econômica, ou seja, foi obrigado a ceder em alguns pontos para manter a relação comercial, ainda extremamente vantajosa para o país asiático. Durante esses oito anos, o gigante oriental fez a lição de casa. Apesar de ainda enfrentar problemas internos sérios, preparou-se para a nova investida estadunidense e agora pode enfrentar o problema com mais resistência.

Isso quer dizer que a China venceu a disputa? Que os Estados Unidos vão ter que ceder e manter a relação antiga? Não é bem assim.

Durante mais de 30 anos, os Estados Unidos optaram por transferir para a China a esmagadora maioria dos meios de produção em nome do custo mais baixo, agilidade e preços mais acessíveis para a população. Parece que funcionou, mas criou outro problema a longo prazo: o déficit comercial entre as duas nações vem aumentando significativamente, alcançando quase meio trilhão de dólares em 2024. Isso mesmo: os EUA importam da China meio trilhão de dólares a mais do que exportam.

Esses dólares ficam em poder do governo chinês, já que os exportadores são obrigados a trocá-los por yuan (moeda oficial da China). Para manter o produto chinês barato, a ditadura que governa o país controla artificialmente o câmbio, mantendo o yuan desvalorizado — quando, em livre mercado, o normal seria o oposto. Com tanto dólar circulando internamente, a moeda nacional deveria se valorizar.

Há ainda outros aspectos que contribuem para esse custo final tão baixo: a ausência de leis e encargos trabalhistas, isenção de impostos, condições de trabalho precárias, jornadas exaustivas e quase nenhuma fiscalização — características comuns a regimes autoritários como o chinês.

Na última sexta-feira, ocorreu a primeira manifestação oficial do governo chinês sobre as novas tarifas e retaliações após o primeiro aceno de Trump a Xi Jinping. A China promete "lutar até o fim", apostando na forte pressão externa e interna que o governo estadunidense vem sofrendo, principalmente de empresas bilionárias que estão perdendo trilhões de dólares com a queda nas bolsas de valores.

Apesar de tudo apontar para uma vitória chinesa a curto prazo, as consequências podem ser mais benéficas para os Estados Unidos e não tão boas para a China. A Europa já declarou que não tem como absorver o volume de importações chinesas (estimado em US$ 600 bilhões anuais), caso os EUA mantenham as tarifas. Além disso, a China não possui mercado interno compatível com sua gigante produção, principalmente porque o baixo salário do trabalhador chinês limita seu poder de compra.

Diante disso, os Estados Unidos já sinalizam com fortes investimentos na Índia e em Taiwan, além de planos de reindustrialização de parte da sua cadeia produtiva. Se a China resolver cobrar a dívida pública dos EUA — aproximadamente US$ 800 bilhões —, poderá provocar inflação e desvalorização do dólar globalmente, o que tornaria a produção interna americana mais barata e a China menos atrativa para investidores.

Vale lembrar que, assim como os EUA, a China também vê sua dívida pública crescer. Estima-se que 25% dos jovens chineses não conseguem emprego, mesmo com salários baixos. A bolha imobiliária, fomentada pelo governo, é devastadora e resultou no surgimento de várias “cidades fantasma”. Ou seja, nem tudo é a maravilha que a propaganda estatal apresenta.

Donald Trump é conhecido por sua habilidade em negociar e sabe que não pode permanecer inflexível em um momento em que o processo inflacionário ainda resiste — embora a inflação tenha recuado para 2,4% ao ano em março — e a economia já dá sinais de retração em 2025. Tudo indica que estamos diante da clássica "teoria do bode na sala": elevar ao máximo o tom para depois ceder parcialmente e, ainda assim, sair vitorioso.

Mesmo que tenha que recuar em alguns pontos com a China e outros países, tudo indica que, a médio e longo prazo, os Estados Unidos sairão fortalecidos dessa disputa.

As duas maiores economias do mundo se digladiando não é bom negócio — nem para elas, nem para os demais países. Resta torcer para que este embate não escale para a área bélica, o que não parece ser o estilo nem de Trump, nem de Xi Jinping. Taiwan, no entanto, pode ser a pedra de toque desse equilíbrio instável.


últimas notícias