Entenda como a inteligência artificial ameaça silenciar os dubladores ao romper barreiras éticas e legais, colocando em risco a identidade artística da indústria

William Oliveira Publicado em 12/06/2025, às 12h11
Com o passar dos anos, a sociedade tem se moldado às novas descobertas. Desde a invenção da eletricidade e o surgimento da lâmpada, o mundo vem sendo transformado por tecnologias criadas para facilitar e otimizar o trabalho humano no dia a dia. No entanto, o que acontece quando essas inovações deixam de ser ferramentas de apoio e passam a representar uma ameaça real a determinadas profissões?
À medida que a automação se infiltra nas cadeias de produção audiovisual, processos antes realizados exclusivamente por profissionais humanos começam a ser substituídos por soluções automatizadas. Tecnologias de Inteligência Artificial (IA) já são capazes de dublar, sincronizar falas e até replicar vozes de artistas com impressionante realismo, otimizando tempo e reduzindo custos para estúdios e produtoras. É justamente nesse ponto que muitos dubladores brasileiros têm se mobilizado, em busca de regulamentações que garantam sua proteção. Curiosamente, este parágrafo foi escrito com o auxílio de uma IA, tecnologia essa que, ironicamente, inspira essa discussão.
Recentemente, as redes sociais foram tomadas por um movimento formado por dubladores que busca regulamentar o uso da Inteligência Artificial na dublagem brasileira e em outros setores artísticos. O movimento surgiu logo após a greve de roteiristas e atores de Hollywood, que tinha como um dos objetivos barrar a utilização da IA, a fim de garantir os direitos dos profissionais.
O grupo, denominado "Dublagem Viva", busca regulamentar a aplicação dessa tecnologia no setor de dublagem de filmes, séries e animações, com o objetivo de preservar a “essência humana” no processo. A campanha tem como objetivo fornecer autenticidade e originalidade à versão dublada das produções, adaptando os personagens à cultura e ao contexto de cada país, ao mesmo tempo em que visa impedir que a tecnologia substitua o trabalho humano da dublagem, com o intuito de "não silenciar os dubladores brasileiros". A ação busca também regulamentar os direitos dos profissionais da área.
Entre as restrições defendidas pelos dubladores para o uso da inteligência artificial, estão:
Em 2013, um estudo publicado pela Universidade de Oxford, já alertava para os riscos que a automação poderia representar para diversas profissões. Intitulado “The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerisation?”, o relatório analisou 702 ocupações nos Estados Unidos e concluiu que cerca de 47% dos empregos estavam sob alto risco de serem automatizados nas duas décadas seguintes. Embora a dublagem não tenha sido mencionada diretamente, áreas ligadas à atuação e interpretação vocal foram ditas como as mais suscetíveis ao impacto de tecnologias emergentes, como a própria Inteligência Artificial, com um risco de 15% de uma possível automação.

De acordo com Ângela Couto, dubladora e representante da Associação Brasileira de Dubladores (DUBLAR), além de tudo, a dublagem é um recurso de acessibilidade, que possibilita atingir um público que não tem acesso à língua original da obra, sendo prejudicado pela automação do processo. “A dublagem perde a personalidade e se torna mera informação. Aliás, em muitos casos, como temos visto, uma informação pessimamente transmitida”, disse Ângela. Segundo a profissional, a IA não respeita as particularidades de nosso idioma. “O português tem muitas nuances que a IA não consegue acompanhar, como semântica, linguística, sintaxe, inflexões, interpretações e a diversidade da nossa linguagem”, complementa.
Ainda segundo a artista, a dublagem é uma forma de manifestação artística profundamente humana, pois é realizada por meio da voz, que carrega personalidade e emoção. No entanto, quando realizada por IA, a dublagem perde essa essência e se torna apenas uma informação vazia. Ela ressalta que, ao ser feita por tecnologia, a prática viola os direitos dos trabalhadores da área, além de ferir princípios de direitos autorais e conexos, entre outros direitos dos cidadãos brasileiros. A partir deste ponto, o movimento busca garantir que a dublagem seja reconhecida como um trabalho artístico legítimo, defendendo a proteção dos direitos dos profissionais da área.
“A Dublar e o sindicato dos artistas têm se alternado nas demandas da profissão conforme surgem as necessidades. Estamos formando frentes de trabalho e organizando discussões sobre o que deve ser pautado para melhorias na categoria, tanto com o governo quanto com os parlamentares. Essa unidade, que compõe o movimento Dublagem Viva, visa defender os direitos já adquiridos e buscar o reconhecimento de novos direitos para a categoria”, afirmou a representante da organização.
A campanha tem como função fornecer autenticidade e originalidade à versão dublada das produções, além de adaptar os personagens à cultura e ao contexto de cada país. A campanha visa impedir que a tecnologia substitua o trabalho humano da dublagem, com o intuito de “não silenciar os dubladores brasileiros”. A ação busca regulamentar os direitos dos profissionais da área. “Trata-se de preservar a arte e o artesanato envolvidos na dublagem. Cada ator traz uma interpretação única, com profundidade emocional que uma IA simplesmente não consegue replicar”, explicou a associação United Voice Artists, grupo responsável pelo movimento globalmente, em nota.
Ângela ainda foi direta ao afirmar que a sistematização do processo desconecta o espectador do artista e da obra, que muitas das vezes são essenciais para a identificação do público com o personagem ou ator em questão. “A dublagem deve ser feita por profissionais humanos, utilizando a tecnologia como ferramenta, e não como substituta. Isso conecta o artista ao público e valoriza a obra, tornando a dublagem feita por IA cada vez mais distante e menos aceitável”, disse artista.
“Os sistemas estão sendo produzidos sem prever esses direitos que já estão garantidos pela Constituição [...] Sem regras claras, o uso desordenado da IA pode prejudicar os profissionais envolvidos”, concluiu Ângela.
Ameaça à arte: desafios éticos e profissionais
Mas, afinal, o que é uma IA? Em resumo, a Inteligência Artificial é um campo da ciência da computação que busca criar sistemas e máquinas capazes de realizar tarefas que, normalmente, exigiriam inteligência humana. Essas tarefas podem incluir aprender com experiências passadas, reconhecer padrões, tomar decisões, compreender a linguagem natural, resolver problemas complexos e até mesmo realizar atividades criativas.

Em entrevista à reportagem, as sócias-fundadoras da Hera.Build, Rosana Oliveira e Bárbara Vallim, destacaram que a inteligência artificial já está presente de maneira profunda no cotidiano das pessoas. “Ela [IA] aparece nos assistentes virtuais como Siri e Alexa, nas sugestões de filmes e músicas, em filtros de e-mail, aplicativos de navegação e até na câmera e tradutor do celular”, explicam.
“A IA ajuda em diversas áreas: organização de tarefas com assistentes de voz, recomendações personalizadas de conteúdo em plataformas como Netflix e Spotify, tradução e correção de textos, detecção de fraudes em bancos, filtros de spam e até no suporte ao diagnóstico médico”, destacam.
Entretanto, a aplicação da IA no setor levanta diversas questões, tanto em relação aos direitos profissionais quanto sobre o impacto social da automação do serviço, devido à possibilidade de substituição do trabalho humano. Com o avanço da tecnologia, outra questão que surge é a utilização de algoritmos para sintetizar vozes e imitar com extrema precisão a voz de um dublador, mesmo após o seu falecimento.
Um exemplo disso foi um caso que circulou nas redes sociais envolvendo a voz de Isaac Bardavid, um dos pioneiros da dublagem brasileira, conhecido por suas interpretações icônicas, incluindo o personagem Wolverine da Marvel Comics. Bardavid faleceu em 2022, mas diversos vídeos que circularam nas redes sociais utilizaram sua voz, em uma “homenagem” feita por um fã, para redublar o filme Deadpool 3, trazendo o artista novamente como intérprete do herói.
Sobre o uso da IA no setor audiovisual, Rosana e Bárbara alertam para a necessidade de equilíbrio. “A dublagem com IA pode acelerar processos e reduzir custos, mas também levanta debates sobre a perda da expressividade e da interpretação humanas. A originalidade nas produções audiovisuais depende de elementos subjetivos como emoção, intenção e tom — aspectos que uma IA ainda não reproduz com a mesma profundidade”, afirmam.
Em fevereiro deste ano, a Prime Vídeo causou uma nova polêmica nas redes sociais ao lançar em seu catálogo o filme espanhol “O Silêncio de Marcos Tremmer”, dirigido por Miguel García de la Calera, dublado inteiramente com o uso de inteligência artificial. Na trama, a dublagem ficou visivelmente desconexa da história, com vozes que não correspondiam às emoções dos personagens e não se encaixavam bem no contexto, incluindo erros de pronúncias.

Posteriormente, a empresa anunciou a criação de um programa piloto com o intuito de testar a utilização da tecnologia em outros longas disponíveis na plataforma, a fim de tornar seu conteúdo mais acessível para o público ao redor de todo o globo.
"Acreditamos em melhorar a experiência dos clientes com inovação prática e útil de IA [...] estamos ansiosos para explorar uma nova forma de tornar as séries e filmes mais acessíveis e agradáveis", anunciou Raf Soltanovich, vice-presidente de tecnologia do Prime Vídeo e Amazon MGM Studios.
Apesar dos avanços, as fundadoras da Hera.Build alertam para a importância de encontrar um ponto de equilíbrio entre inovação e valorização dos profissionais. De acordo com elas, a IA pode sim ser implementada como uma aliada, desde que não substitua a essência artística do trabalho humano. “A IA pode ser usada como ferramenta auxiliar, por exemplo, para gerar versões preliminares ou facilitar a sincronização labial, mas o resultado final pode (e deve) continuar contando com o trabalho dos dubladores”, explicam. Elas reforçam ainda a necessidade de políticas que garantam o respeito aos direitos dos artistas e promovam um diálogo constante entre tecnologia e arte.
Em relação ao futuro com a tecnologia, Bárbara e Rosana preveem um cenário cada vez mais automatizado, eficiente e personalizado, embora não isento de novos desafios. “A tecnologia continuará transformando setores como saúde, educação, mídia e entretenimento, e será essencial garantir que seu uso ocorra com responsabilidade, transparência e inclusão.” Elas completam: “A melhor perspectiva é um futuro em que humanos e inteligências artificiais trabalhem juntos, com a tecnologia ampliando a criatividade e as capacidades humanas, sem apagar a importância do trabalho e da sensibilidade das pessoas.”
Por outro lado, Angélica Santos, dubladora e diretora de dublagem, compartilhou sua visão sobre o uso da ferramenta no setor. Questionada sobre a tecnologia, Angélica afirmou que o problema não está na IA em si, mas na forma como ela é utilizada. "Ela [IA] pode ser usada para copiar vozes e até substituir os artistas. E aí corremos o risco de reduzir toda essa arte a algo mecânico, sem emoção, sem interpretação, sem verdade", disse Angélica.
"A grande crítica está no uso da inteligência artificial sem permissão, sem pagar, sem reconhecer o trabalho humano. Isso não é avanço, isso é apagamento. Então, não é uma questão de ser contra ou a favor. A verdadeira questão é: como a gente vai usar essa tecnologia com responsabilidade? Porque, no fim das contas, a tecnologia tem que estar a serviço das pessoas, não o contrário", afirmou a diretora.
De acordo com os profissionais do ramo, no momento a maior dificuldade atualmente é conscientizar a sociedade de que a dublagem é, de fato, um trabalho artístico — o que acaba levando à negligência dos critérios profissionais por parte de quem não reconhece esse valor. Apesar da ausência de uma legislação específica que regulamente o uso da inteligência artificial na dublagem, o Brasil já dispõe de algumas medidas jurídicas que, direta ou indiretamente, garantem os direitos aos profissionais da área. Entre elas:
Angélica também expressou sua insatisfação em relação à vontade de alguns na categoria, afirmando que a arte não pode ser substituída, e que ninguém tem o interesse de ser substituído. Segundo ela, a ferramenta não é arte, ela apenas copia algo que já existe e é produzido por intermédio de vozes humanas, que se esforçam para entregar um “produto” de qualidade e satisfatório para o gosto do público. "Ela não cria com alma, com verdade, com sentimento. E é por isso que não pode ocupar o lugar de quem vive a arte de verdade", finalizou.
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