A criação de um ecossistema de informação sob o trumpismo e suas consequências para a verdade e a liberdade de imprensa

Ricardo Mariath Publicado em 23/09/2025, às 13h25 - Atualizado em 16/10/2025, às 14h49
Em 1831, o jovem aristocrata francês Alexis de Tocqueville chegou aos Estados Unidos para estudar o que considerava a grande experiência política de sua época: a democracia. Deste estudo resultou a obra "A Democracia na América", contendo previsões notáveis sobre os riscos que tal sistema viria a enfrentar. Quase 200 anos depois, suas palavras soam como um alerta profético sobre a era Trump.
O que Tocqueville denominou "poder tutelar" - um governo que não precisa usar força bruta, mas que gradualmente infantiliza os cidadãos - parece estar se concretizando de forma perturbadora no projeto político de Donald Trump. Não se trata aqui de analisar políticas específicas, mas de entender como seu estilo de (des)governança ameaça os pilares da democracia norte-americana.
Tocqueville previu um despotismo "imenso e tutelar" que aliviaria os cidadãos "do peso de pensar e do incômodo de viver". A famosa frase de Trump - "I alone can fix it” (Só eu posso consertar isso) - encapsula exatamente essa mentalidade. Em vez de fortalecer a capacidade dos cidadãos de resolverem problemas coletivamente, oferece-se como solução única, o tutor que pode dispensar as instituições democráticas tradicionais.
A promessa de Trump de ser um "pai" forte que protege a nação ("America First") ecoa, ainda que imperfeitamente, a ideia do poder tutelar. Seu discurso frequentemente apresenta os cidadãos como vítimas de forças externas das quais apenas ele pode salvá-los.
No entanto, o trumpismo, é divisita e caótico, não metódico e paternal como o estado previsto por Tocqueville. A ameaça, portanto, não é de um estado burocrático opressivo, mas de um personalismo executivo que busca concentrar poder e lealdade na figura do presidente, minando a confiança nas instituições burocráticas e de informação (o "Estado Profundo").
Outro conceito crucial em Tocqueville é o de "tirania da maioria" - não no sentido numérico, mas como imposição de conformidade intelectual. O trumpismo dominou esse jogo ao criar seu próprio ecossistema de informação, onde fatos são negociáveis e a lealdade ao líder supera a verdade objetiva.
A imprensa livre, que Tocqueville considerava vital para a democracia, é sistematicamente atacada como "inimiga do povo", enquanto o dissenso é tratado como traição. É constante a estigmatização dos adversários, a desinformação e a propagação de notícias falsas e as tentativas de deslegitimação das instituições. Só é verdade o que se publica, ironicamente, por meio da “Truth Social”, a rede social criada por Trump para ser seu porta-voz.
O que torna a análise de Tocqueville tão relevante é que ele identificou não só os perigos, mas também os antídotos contra a tirania: instituições locais fortes, imprensa livre, judiciário independente e, crucialmente, o hábito americano de se associar para resolver problemas.
O fenômeno Trump enfraquece precisamente esses antídotos. A lealdade personalista substitui o engajamento cívico institucional. O conflito constante com governadores e prefeitos demonstra desprezo pela descentralização do poder. O ataque à independência judicial e midiática corrói os freios e contrapesos essenciais.
A ameaça não é que Trump se torne um ditador clássico - pelo menos por hora -, mas que seu estilo de governança normalize um personalismo político que enfraquece gradualmente a musculatura democrática. A democracia deixa de ser sobre cidadania ativa e transforma-se em uma relação passiva onde se espera que um líder forte resolva tudo.
O legado mais perigoso de Trump pode não ser suas políticas, mas ter demonstrado como uma democracia pode ser vulnerável a um poder tutelar personalista que promete proteção em troca de liberdade. Quando os cidadãos aceitam essa troca, todos perdem no longo prazo, como já alertava o pensador francês.
A questão que permanece é se os americanos - e outras democracias ocidentais observando este experimento - lembrarão que a democracia não é um esporte para espectadores, mas exige cidadãos ativos, críticos e engajados.
Ricardo Mariath
Cientista Político e Sociólogo
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