Diário de São Paulo
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Rachel Sheherazade

Por trás do detergente, a manipulação

Entre teorias conspiratórias, polarização política e busca por pertencimento, episódios envolvendo o detergente Ipê reacendem o debate sobre manipulação ideológica e radicalização nas redes.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Rachel Sheherazade Publicado em 12/05/2026, às 19h58


Recentemente, vídeos de pessoas tomando banho e ingerindo detergente supostamente contaminado têm circulado no Brasil como parte de um protesto político contra a Anvisa, que é acusada de agir em prejuízo de uma marca que doou a campanha de Jair Bolsonaro.

Essas ações refletem uma polarização ideológica, onde os participantes, que anteriormente se opuseram a medidas de saúde pública durante a pandemia, buscam pertencimento a um grupo que ignora evidências e ciência em favor de sentimentos e ideais políticos.

A manipulação de emoções como medo e ódio por líderes políticos e espirituais é destacada, especialmente em um ano eleitoral, evidenciando a necessidade de romper com bolhas ideológicas e promover um pensamento crítico e independente entre os cidadãos.

Esta semana, o Brasil tem visto uma série de videos de pessoas tomando banho e até bebendo um detergente possivelmente contaminado por uma bactéria.

As performances divulgadas na internet estão sendo justificadas como um “protesto político”. Essas pessoas acreditam que a decisão técnica da Anvisa quer prejudicar a dona da marca Ipê, que teria doado um milhão de reais à campanha do ex presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar.

O fato é que a inspeção da Anvisa foi realizada em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo, órgão ligado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, governado pelo bolsonarista Tarcisio de Freitas.

Mas, fatos, ainda que evidentes, não convenceram nem convencerão a turma do detergente.

Os hoje bebedores de Ipê são os mesmos que tentaram cancelar a marca de chinelos Havaianas, que negaram a existência da COVID, que fizeram campanhas contra o uso de máscaras, contra o isolamento social durante a pandemia e contra a própria vacinação.

Nao é uma questão de razão, mas de pertencimento politico ideológico.

Para pessoas situadas no campo da polarização, não importa a verdade, a informação, a ciência, a evidencia, a saúde pública, o bom senso comum… Quem manda é o coração.!

O que importa é sentir-se acolhido, fazer parte de um grupo, ainda que esse grupo represente tudo o que há de mais incoerente, pernicioso, anti-ético, desumano…

A necessidade de pertencimento está ligada ao instinto de sobrevivência, e desperta emoções primitivas.

Sem um grupo ao qual pertencer, não há como se defender. Então, isolamento vira vulnerabilidade. Então, ser parte de um grupo, qualquer grupo, é preferível a ficar só.

Por isso, a maioria vai com a manada.

Por isso, quem não põe a razão à frente do sentimento é conduzido, em rebanho, como uma besta, trotando feliz rumo ao abatedouro.

Sentimentos como o medo, o ódio, a paixão ideológica são frequentemente utilizados por falsos lideres espirituais e políticos charlatães.

Isso é o que chamamos de manipulação.

Por trás do alarmismo, das teorias conspiratorias, do patriotismo extravagante, das guerras santas espirituais, há interesses puramente pessoais, e neste ano, especificamente, há uma importante eleição em vista.

Os manipuladores sabem disso e se utilizam de pessoas desinformadas, ressentidas e sugestionáveis como massa de manobra.

Simples assim.

Sair desse transe ideológico é um desafio tremendo.

É preciso furar a bolha de informação e ideológica. É preciso humildade para reconhecer o erro, e coragem.

Coragem para se desgarrar do grupo, para confrontar incoerências e contradições, é preciso coragem para pensar por si, livre do fanatismo, da radicalização e das correntes ideológicas que mais dividem do que somam.


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