
Lele Abdala Publicado em 06/10/2025, às 08h00
Nem todo portal que se abre é de luz. Em tempos de rituais transmitidos, meditações coletivas e “ativações” com centenas de pessoas, esquecemos um princípio simples: todo campo energético amplifica o que o alimenta. Se o que alimenta é coragem, amor e propósito, a frequência se expande. Se o que alimenta é carência, vaidade e necessidade de validação, a mesma antena vira ímã de densidade sombras usando brilho emprestado.
O umbral, na linguagem simbólica, não é um endereço místico distante: é o porão da psique onde empilhamos o que não queremos ver.
Quando abrimos portais sem preparo interno, esse porão respira. E o que respira pede alimento: drama, idolatria, promessas fáceis, milagres com hora marcada. A plateia vibra, lágrimas caem, fotos saem perfeitas… e, ainda assim, algo fica torto por dentro. O charme das sombras disfarçadas é que elas imitam a luz. Têm discurso, estética e timing. Só não têm enraizamento. Confunde-se catarse com cura, êxtase com expansão, barulho com presença. O resultado é um pós-ritual de ressaca sutil: cansaço, irritação, sonhos pesados, recaídas.
Não é castigo; é falta de aterramento. Discernir é ato espiritual. Pergunte-se antes de qualquer abertura: qual é a real intenção? Aprovação? Status? Fuga? Ou compromisso com verdade, serviço e responsabilidade? Portais são como portas de aeroporto: você não controla quem passa, mas escolhe o voo que embarca. Intenção é o bilhete; consciência é o passaporte; limites são a alfândega. Há sinais de alerta: quando a prática promete atalho, quando o líder pede obediência cega, quando o grupo se alimenta de comparação, quando a experiência depende de espetáculo.
Há, em contrapartida, sinais de luz real: silêncio que acolhe, humildade que ensina, limites claros, devolutiva amorosa, integração após o pico energético. Proteção não é parede de medo; é musculatura de presença. Respiração, oração sincera, ancoragem no corpo, acordos explícitos com o sagrado, fechamento do campo ao final tudo isso é higiene espiritual. E, sobretudo, a coragem de ir embora quando o seu corpo diz “não”. Talvez a polêmica mais incômoda seja esta: muitos “portais” de hoje são vitrines de ego com luz cenográfica.
Não julgue, observe.
O ego gosta de palco; a alma prefere altar. Palco quer aplauso; altar quer verdade.
Um produz fama, outro produz fé. Reflexão: “Nem toda luz ilumina; algumas apenas ofuscam.” Agora é com você: quais espaços têm nutrido sua essência e quais têm sugado seu eixo? Que portal você escolhe abrir em si antes de buscar um do lado de fora? Lembre-se: o maior portal é discreto, nasce no silêncio e cresce na vida que você escolhe viver depois do ritual. Prática breve: antes de qualquer encontro, fique três minutos com pés no chão e mão no coração. Diga: “Eu escolho apenas o que me expande.” Ao encerrar, agradeça, respire, imagine um zíper fechando seu campo e beba água. Simples, profundo e suficiente.
Nos vemos na próxima coluna.
Com verdade e consciência,
Lele Abdala
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