
por André Molinari
Publicado em 13/08/2025, às 09h28
No episódio bíblico em que Jesus expulsa os vendilhões do templo, há mais do que uma cena de fúria divina. Há um alerta atemporal: o sagrado não pode ser reduzido a moeda de troca. Porém, dois mil anos depois, o templo mudou de endereço — agora ele está nas redes sociais, nos palcos de eventos motivacionais e nos altares midiáticos. E os novos vendilhões usam microfones, câmeras e discursos cuidadosamente ensaiados.
Pastores prometem prosperidade instantânea mediante depósitos generosos. Padres transformam a fé em show de auditório, com mais holofotes que oração. Pais de santo oferecem “trabalhos” como se fossem pacotes de assinatura, esquecendo a ancestralidade e a ética do orixá. Gurus vendem iluminação espiritual parcelada em 12 vezes no cartão. E, claro, os coachs espirituais, com suas frases prontas e vídeos virais, vendem “chaves da felicidade” como se a vida fosse um curso de final de semana.
O problema não está na existência de líderes espirituais, mas na substituição do compromisso com o cuidado real da alma por uma espiritualidade rasa, enlatada e de consumo rápido. É a fé transformada em produto, com embalagem bonita e conteúdo pobre. “A fé que não pensa, cega; a fé que não sente, morre”, já dizia Khalil Gibran. Mas para esses novos vendedores do sagrado, pouco importa o pensar ou o sentir — importa converter seguidores em clientes.
A fragilidade emocional das pessoas virou nicho de mercado. Quem está em dor busca esperança, e quem tem esperança está disposto a ouvir. Mas quando o “guia” busca apenas manter a dependência do fiel para garantir a próxima contribuição, o que se pratica não é espiritualidade, é exploração. É como alertou o filósofo Jiddu Krishnamurti: “A verdade é uma terra sem caminhos. Não se pode chegar a ela por religião alguma.” Mas quantos líderes realmente libertam, em vez de prender?
O marketing espiritual moderno promete atalhos para a paz interior. “Compre este curso e transforme sua vida.” “Faça esta novena e conquiste o amor em sete dias.” “Participe deste ritual e garanta prosperidade eterna.” São slogans travestidos de fé, embalados na estética do milagre rápido. A espiritualidade virou fast food: satisfaz momentaneamente, mas não nutre a alma.
Essa fé de prateleira não estimula o autoconhecimento, não convida ao silêncio, não promove responsabilidade pessoal. Ao contrário: terceiriza-se a própria conexão com o divino para intermediários que se beneficiam da ingenuidade alheia. Nietzsche, provocador como sempre, já dizia: “A fé é não querer saber a verdade.” Mas será mesmo fé quando se acredita apenas porque alguém com carisma e boa oratória garantiu?
Entregar a própria vida espiritual a esses novos vendilhões é perigoso não apenas para a alma, mas para a mente. O impacto psicológico da fé manipulada é devastador: cria dependência emocional, culpa artificial, medo constante e um ciclo de busca que nunca se resolve. Como se o fiel fosse um eterno devedor da graça — e o líder, o único com a chave do cofre celestial.
A espiritualidade verdadeira não tem preço, não tem dono, não cabe em um manual de cinco passos. Ela é processo íntimo, silencioso e, muitas vezes, solitário. O templo mais sagrado é o próprio ser humano. Jesus não expulsou os vendilhões apenas para limpar um espaço físico; ele expulsou a lógica de transformar fé em negócio. Hoje, talvez fosse hora de repetir o gesto — mas agora, dentro de nós.
Porque enquanto não tivermos coragem de assumir que a nossa conexão com o sagrado é pessoal e intransferível, continuaremos comprando ilusões e vendendo nossa liberdade espiritual ao menor lance. E, no fim, os novos vendilhões agradecerão — de terno, batina, colar de contas, túnica indiana ou camisa slim fit motivacional — enquanto contam o lucro, e não as almas.
Babá André Molinari
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