
por Ana Paula Siqueira
Publicado em 30/08/2024, às 11h41
O menino Pedro Henrique tirou a própria vida em um dia 12 de agosto. Escrevo, mais de duas semanas depois, porque a certeza dos fatos é mais importante do que manchetes de jornais ou cliques e views em redes sociais. Hoje é possível dizer com absoluta convicção que a decisão extrema de Pedro foi muito influenciada pelo bullying que ele sofria em uma das escolas mais tradicionais de São Paulo, por ser bolsista, negro e gay.
De quem é a culpa pelo ocorrido? Afirmo, categoricamente, que toda a sociedade tem sua parcela de culpa, com exceção, claro, das vítimas, Pedro, sua família e milhões de pessoas que acordam e enfrentam o dia a dia, vítimas de uma sociedade sem empatia.
Uma sociedade onde uma pessoa financeiramente bem-sucedida é classificada com ‘elite’, enquanto Pedro, um menino brilhante, que mesmo com poucas chances conquista uma vaga em uma das escolas mais conceituadas da cidade, é chamado de ‘periférico’.
O bullying nas escolas, muitas vezes praticado por jovens de famílias privilegiadas, levanta questões sobre a responsabilidade na formação de crianças e adolescentes. Aos 14 anos, esses jovens replicam os preconceitos e a violência que a própria sociedade lhes ensina. Seriam eles os únicos culpados? Ou os pais e a sociedade, que deveriam priorizar uma educação que vá além do conteúdo escolar, fomentando empatia, responsabilidade social e respeito à diversidade?
No contexto do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, a discussão ganha contornos específicos. A instituição é conhecida por abrir suas portas a alunos de diferentes realidades socioeconômicas, como é o caso de Pedro Henrique, morador da Vila dos Remédios, Osasco, e filho de trabalhadores, que não pode arcar com a mensalidade de mais de R$ 5 mil. Apesar dessa diversidade, a escola alega que possui um projeto próprio de convivência para promover a inclusão e combater o bullying.
No entanto, ficam as perguntas: Qual é o conteúdo desse projeto? Onde está documentado? Quais ações concretas foram implementadas? Existe um programa permanente que promova a Cultura da Paz e enfrente o bullying de maneira eficaz? A Lei 13.185/2015, conhecida como a Lei do Bullying, exige essas respostas, e o Código Penal, em seu artigo 146-A, agora classifica o bullying como crime, caso não ocorra um delito mais grave.
O Colégio Bandeirantes, assim como muitas outras instituições, afirma estar tentando enfrentar o problema. Porém, o enfrentamento ao bullying demanda mais do que tentativas: requer ações concretas, estratégias bem definidas e o compromisso de especialistas. Nenhuma escola quer seu nome associado ao bullying, mas cabe às instituições o desenvolvimento de um plano robusto e consolidado para combater essa prática. E é justamente isso que muitas instituições de ensino (do Ensino Fundamental ao Pós-doutorado) parecem ignorar.
Pedro Henrique teria avisado a escola e a Ismart, entidade que lhe concedeu a bolsa. Ninguém soube como agir para impedir a sua dor. Um educador chegou a classificar os alunos bolsistas de “agressivos”, por exigirem seus direitos. Mesmo que eles tenham sido agressivos, é papel do educador entender o contexto e abraçar essas crianças.
A imprensa também tem a sua parcela de culpa. O bullying acontece diariamente, mas só vira pauta quando ocorre uma tragédia. Dias depois, pouco a pouco, o tema volta ao esquecimento.
É preciso falar sobre como o bullying afeta as vítimas por toda a vida, o sofrimento das famílias, a falta de preparo para lidar com os autores, como as escolas ainda negligenciam o assunto, explicar as ações afirmativas e proativas para prevenção, exigir o cumprimento das leis, levar o tema para programas de debates, auditórios, falar sobre ele nas redes sociais.
O bullying é muitas vezes considerado um tema irrelevante, até que ele acontece com uma pessoa próxima. Neste momento, ele passa a ser o tema mais importante, pela sua enorme capacidade destrutiva.
Somente em 2024, tivemos duas mortes de vítimas diretas de bullying. Carlos, de 13 anos, agredido na escola em Praia Grande e Pedro Henrique, de 14, na Capital.
Como sociedade, temos dois caminhos: começar a agir de maneira firme contra o bullying ou aguardar o próximo nome que vai estampar as manchetes dos jornais.
Leia também

Dom Rafael perde direitos dinásticos após anunciar casamento

O fim da Ordem Mundial: 2026 e o retorno do "cada um por si"

Quase 900 cobras escapam de criadouro durante enchentes no sul da China

Messi fica fora de treino antes da semifinal da Copa do Mundo

Polícia Civil desmonta esquema com mais de 100 empresas de fachada e prende suspeito em São Paulo

Professor é espancado em estação da Linha 5-Lilás e diz ter sido alvo de homofobia

Espanha supera França, bate recorde de invencibilidade e garante vaga na final da Copa

Flávio Dino cobra explicações do Congresso e amplia investigação sobre emendas parlamentares

Lula sanciona lei que torna obrigatória educação política e cidadania nas escolas

França celebra a Bastilha, mas enfrenta uma batalha pela própria identidade