
por Marlene Theodoro Polito
Publicado em 12/11/2024, às 07h24
Lewis Wickes Hine, fotógrafo e sociólogo americano do início do século XX, foi fundamental para despertar a atenção sobre as duras condições de trabalho infantil nos Estados Unidos.
Nesse período, o processo de industrialização estava em pleno funcionamento em todo o país, e, lutando contra a miséria, muitas famílias dependiam do trabalho infantil para sobreviver. Algumas crianças tinham cinco ou seis anos e iam para minas de carvão, fábricas de tecido, ou vendiam jornais nas ruas. As condições eram insalubres, e a jornada de trabalho exaustiva chegava a 12 horas diárias. Havia poucas leis para a regulamentação ou a proteção dessas criaturas que muitas vezes passavam frio, fome e dormiam ao relento.
Hine enxergava a fotografia como uma ferramenta poderosa para a mudança social, e seu trabalho fotográfico foi decisivo para expor e combater a exploração infantil, mostrando a vulnerabilidade dessas crianças.
Um olhar no tempo
A noção de infância como uma fase cheia de singularidades não esteve sempre presente em nossa sociedade.Na verdade, não havia as distinções que hoje consideramos naturais.
O papel das crianças mudou ao longo dos séculos, havendo períodos em que elas eram vistas mais como pequenos trabalhadores ou adultos em formação do que como seres em desenvolvimento e aprendizado – um conceito relativamente recente.
Essa percepção, diversa em diferentes épocas e sociedades, influenciou como as crianças eram tratadas e representadas nas artes. Sua expressão é um reflexo direto de como cada época entendia essa fase da vida — ou, em alguns casos, de como a ignorava.
Uma breve trajetória da representação infantil na arte
Antiguidade Clássica
No Egito, as crianças eram representadas nos hieróglifos e pinturas de forma estilizada, com proporções que não estavam de acordo com as características da fase infantil. Privilegiava-se o vínculo familiar e o status social.
Idade Média – Sem a concepção de infância como fase distinta, as crianças eram mostradas como pequenos adultos em contextos religiosos.
Renascimento – A infância começa a ser valorizada como fase singular, com interesse em suas características psicológicas e físicas, evidenciando o humanismo. As figuras caracterizam-se pela pureza e proximidade com o divino. Há um cuidado nos detalhes das expressões faciais e corporais buscando representar a essência e a individualidade do ser humano.

Idade Moderna – Com o Iluminismo, a infância é vista como período formativo, explorado pelo Romantismo e Realismo.
No século XX, a psicologia reforça a importância do desenvolvimento emocional infantil.
Artistas como Picasso e Chagall interpretaram a infância como fase de liberdade e fantasia, explorando formas lúdicas e imaginativas.

A infância no olhar contemporâneo – A imagem da infância na arte contemporânea tem muitas faces. Alguns artistas mostram uma visão de inocência e nostalgia, enquanto outros retratam crianças em contextos críticos, como a exploração, a vulnerabilidade, a violência e até a sexualização e o consumismo.
Uma reflexão final
Ao longo dos séculos, a visão sobre a infância evoluiu e se transformou, revelando uma trajetória de desafios, redescobertas e valorização.
Hoje, ao olharmos para trás, percebemos que proteger e cultivar a infância é um imperativo de uma sociedade que se preocupa com seu futuro. A criança que habita em nós nos relembra a importância de uma infância plena, onde o brincar, o aprender e o imaginar coexistem.
Que a memória de tempos difíceis, como os retratados por Lewis Wickes Hine, nos inspire a garantir que cada criança, em cada tempo e lugar, tenha a liberdade de ser apenas criança.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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