
Gabriella Alves Andrade Publicado em 05/02/2026, às 08h37
A exposição “Cazuza Exagerado”, em cartaz em São Paulo, propõe uma imersão profunda na vida, na obra e no legado de um dos artistas mais intensos da música brasileira. Além de ser uma retrospectiva, a mostra se constrói como uma experiência sensorial e afetiva, que convida o público a caminhar por diferentes fases da trajetória de Cazuza, entendendo não apenas o ídolo, mas o homem, o poeta e o corpo político que ele se tornou.
Realizada pela segunda vez, a exposição reafirma seu caráter inovador ao apostar em um percurso pensado para todas as idades — crianças, adolescentes, jovens e adultos —, sempre com o cuidado de contextualizar a obra de Cazuza dentro de seu tempo histórico, social e cultural. O visitante participa, escuta, sente e atravessa a narrativa.
Com curadoria de Ramon Nunes Mello, que já pesquisava a vida e a obra de Cazuza antes mesmo da concepção da mostra, a exposição reúne vídeos, filmes, clipes, entrevistas, músicas, poemas, fotografias, manuscritos e objetos pessoais. Grande parte desse acervo foi preservada por Lucinha Araújo, mãe do artista, que guardou por mais de 32 anos fragmentos fundamentais da história do filho — da primeira roupinha de bebê a registros íntimos do fim da vida.
Além do percurso expositivo, o projeto prevê ativações ao vivo, com o planejamento de trazer amigos pessoais de Cazuza ao palco, em encontros e conversas que ampliam a experiência para além das salas e transformam a exposição em um espaço vivo de memória compartilhada.
A primeira sala apresenta Cazuza criança, adolescente e jovem adulto. O visitante conhece suas origens, a relação com a família e os primeiros contatos com a música. É aqui que surgem as primeiras influências e o início do desejo de fazer arte.
Em seguida, o percurso aborda o momento em que Cazuza começa a se reconhecer como criador. Referências culturais, inquietações e experimentações revelam o nascimento de uma voz autoral. O público acompanha a entrada de Cazuza no Barão Vermelho. Músicas, imagens e registros mostram a explosão criativa e o início da projeção nacional.
A próxima sala marca a saída da banda e o começo da carreira solo. O espaço destaca o amadurecimento artístico, a busca por liberdade criativa e a construção de uma identidade própria. Com cores, áudio e iluminação lúdica, o espectador é transportado para as memórias de Cazuza durante a produção de seus sucessos. Lá, estão reunidas as músicas mais ouvidas, capas de discos, fotos e histórias que revelam o auge da fama. O exagero aparece como estética, postura e linguagem.
Outra sala coloca o espectador como parte da produção do programa “Cassino do Chacrinha”. Enquanto a filmagem passa em um telão grande, duas telas menores — acopladas em câmeras de set de filmagem — fazem com que você se sinta parte daquele momento histórico.
O próximo percurso é uma sala recheada de fotos do artista. Como explicou Marcelo Jackow, diretor de arte da Caselúdico, é Cazuza por toda parte. Ali, o visitante é conectado ainda mais com o homem que ele foi e, também, com os ideais que ele acreditava.
Em seguida, o espectador é surpreendido com uma réplica da “caravana do delírio”, o carro que Cazuza utilizava em seus passeios. Uma projeção mapeada que deixa a sala toda em movimento e álbuns de foto no porta-malas deixam a experiência muito mais palpável e próxima de quem visita.
A exposição evidencia Cazuza como poeta. Letras, poemas e manuscritos mostram um artista que transformava sentimentos pessoais em discursos universais. Em um dos núcleos mais potentes da exposição, Cazuza se torna o primeiro artista brasileiro a falar abertamente sobre a AIDS, enfrentando preconceitos e julgamentos.
Próximo do fim, o visitante é convidado a entrar no camarim do último show de Cazuza. Uma réplica do que o artista viu antes de ir ao palco por uma última vez. E, logo em seguida, uma projeção da apresentação encanta e emociona, dando a ilusão de que ele está bem ali, na sua frente, cantando seus maiores sucessos.
Por fim, o visitante é transportado até a Pizzaria Guanabara, onde encontra Cazuza no cinema, nos clipes, nos vídeos e nas entrevistas, compreendendo como sua presença extrapolou a música e ocupou outros espaços culturais. Este núcleo reúne mais de 80 depoimentos de amigos e pessoas próximas. Histórias íntimas, objetos pessoais e fotografias constroem um retrato humano e coletivo do artista.
Lá, é possível sentar-se à mesa com artistas e amigos que conviveram com ele, ouvindo histórias, lembranças e relatos sobre sua vida fora dos palcos. É um encerramento íntimo e caloroso, que rompe a distância entre público e artista, transformando a despedida em encontro.
Ao final do percurso, “Cazuza Exagerado” reafirma que a obra de Cazuza não pertence ao passado. Ela segue viva na memória, na música e nas histórias compartilhadas — exagerada, intensa e verdadeira, como ele sempre foi.
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