
Marcelo Arbex Publicado em 30/03/2024, às 05h20
No primeiro debate presidencial da eleição de 2018 na TV, promovido pela Band, o candidato Ciro Gomes prometeu limpar o nome de 63 milhões de brasileiros que estavam com o nome sujo no SPC. Claramente, ali, ele jogou para a platéia.
Pois bem, em Minas Gerais, segundo a própria emissora, a Band, o debate alcançou 5 pontos de audiência - contra o usual 1 ponto de audiência naquele mesmo dia e horário.
Ainda segundo a Band, isso correspondeu a cerca de 160 mil telespectadores que assistiram o debate em todo o Estado de Minas Gerais - 122 mil na região metropolitana de Belo Horizonte.
Ora, Minas Gerais tinha na ocasião um colégio eleitoral de 15,8 milhões de eleitores. Portanto, a audiência do debate presidencial correspondeu a aproximadamente 1% do eleitorado apenas!
Por estes números, é fácil deduzir que a relevância do debate, a relevância do que é dito no debate e os efeitos do debate no eleitorado em termos de tomada de decisão são efetivamente mínimos. Ou quase insignificantes.
Quanto ao arroubo de boa vontade de Ciro Gomes sobre limpar o nome das pessoas que estavam no SPC, é bem razoável afirmar que, a despeito da reduzida audiência, a parte dela que padecia com o nome sujo, ao ouvir tal promessa, por mais ousada que fosse, a recebeu como algo positivo e bom para suas vidas.
E no final, é só isso mesmo o que importa. Fosse o debate assistido por milhões de pessoas, e dado a baixa capacidade de análise e avaliação da viabilidade da proposta por parte do eleitorado, certamente Ciro teria subido alguns bons pontos nas pesquisas de intenção de voto.
A conclusão aqui é que, numa eleição, é preciso relativizar sempre. Relativizar importâncias e desimportâncias, relativizar o que é dito e o que não é dito, causas e efeitos, ganhos e prejuízos, certo e errado, ataques e contra ataques. E nunca, de forma alguma, perder de vista o seu próprio foco e a sua própria lucidez.
Para efeito de comparação, numa eleição, é preciso agir como se você estivesse frente a frente com um iceberg.
Deve-se sim permanecer atentos à presença e aos movimentos daqueles 10% muito visíveis, que aparecem acima da linha da água, e que atraem e distraem tanto a nossa atenção. Esse é o pedaço formado pela imprensa, jornalistas, dirigentes partidários, amigos, familiares, gênios da comunicação, assessores, cientistas politicos, especialistas em pesquisa, companheiros de campanha, magos da internet, analistas de debates, adversários, sumidades, milagreiros e palpiteiros em geral.
Porém, a parte realmente importante, aquela que nunca se deve perder de vista são os outros 90%. Que permanecem sob a água, que não aparecem, e que são, de fato, quem detem o poder nas mãos. Esses são o povo, os eleitores, as pessoas comuns.
No final, são esses que, apesar de não aparecer nem fazer alarde, vão determinar se você vai afundar ou não.
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