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A criação de uma moeda do BRICS e o papel do Brasil: Controvérsias e implicações globais

BRICS 2024. - Imagem: Reprodução | Portal Gov.br
BRICS 2024. - Imagem: Reprodução | Portal Gov.br
Agenor Duque

por Agenor Duque

Publicado em 03/12/2024, às 08h03


O debate sobre a criação de uma moeda única para o grupo BRICS, que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ganhou novos contornos com declarações recentes do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. Em entrevista à TV BRICS, Lavrov afirmou que o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi o principal defensor da ideia durante a cúpula realizada em Joanesburgo, em 2023.

Segundo Lavrov, Lula sugeriu discutir alternativas ao dólar como moeda central no comércio internacional, o que foi incorporado à Declaração de Joanesburgo. "Ministros das finanças e chefes de bancos centrais começaram a trabalhar na proposta, e houve progresso significativo", declarou o chanceler russo. Ele ainda destacou que acredita que Lula continuará priorizando o tema durante sua presidência.

O contexto histórico e econômico dos BRICS

Criado em 2006, o grupo BRICS inicialmente incluía Brasil, Rússia, Índia e China. Posteriormente, a África do Sul foi adicionada, ampliando a sigla e o alcance geopolítico do bloco. Recentemente, outros países, como Irã, Arábia Saudita e Egito, também aderiram ao grupo.

Atualmente, os BRICS representam cerca de 46% da população mundial e seu Produto Interno Bruto (PIB) combinado ultrapassa o das economias ocidentais, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar desse peso econômico, as economias do grupo permanecem emergentes e enfrentam desafios internos como desigualdade e instabilidade política.

O papel do dólar no comércio global

Desde o Acordo de Bretton Woods, em 1944, o dólar norte-americano se consolidou como a principal moeda nas transações comerciais e financeiras globais. A aceitação universal do dólar e sua ligação com instituições financeiras internacionais conferem aos Estados Unidos uma vantagem estratégica e econômica.

No entanto, a dependência excessiva dessa moeda gera vulnerabilidades, principalmente para economias emergentes. Oscilações na política monetária dos EUA, como o aumento das taxas de juros, podem impactar negativamente essas economias.

Por que os BRICS querem alternativas ao dólar?

A busca por alternativas ao dólar é motivada por razões econômicas e geopolíticas. Um exemplo recente é a exclusão de bancos russos do sistema de pagamentos SWIFT (sistema de mensagens global utilizado por instituições financeiras para realizar transações financeiras de maneira segura e padronizada) após a invasão da Ucrânia. A medida evidenciou os riscos de depender exclusivamente do sistema financeiro dominado por países ocidentais. Desde então, Rússia e China têm promovido transações em moedas locais para reduzir sua vulnerabilidade.

Além disso, a China tem interesse estratégico em fortalecer o yuan como uma alternativa ao dólar, enquanto o Brasil, sob a liderança de Lula, tem defendido um sistema financeiro mais equitativo e menos dependente de moedas ocidentais.

A reação dos Estados Unidos

A ideia de uma moeda única para os BRICS provocou reações fortes, especialmente do presidente eleito dos EUA, Donald Trump. Em declarações recentes, Trump ameaçou impor tarifas de 100% sobre produtos de países que optarem por adotar uma nova moeda ou negociarem fora do sistema dolarizado. "Não há possibilidade de o BRICS substituir o dólar americano no comércio internacional", afirmou Trump, que também prometeu adotar políticas protecionistas em seu governo.

Desafios e perspectivas

Apesar do interesse dos BRICS em reduzir a dependência do dólar, a criação de uma moeda única enfrenta desafios significativos. O grupo não é coeso em termos políticos ou econômicos, e as diferenças culturais e estratégicas entre os países membros dificultam a implementação de projetos comuns.

Além disso, especialistas apontam que substituir o dólar no curto prazo é pouco provável. No entanto, iniciativas como o uso de moedas locais em transações bilaterais e o financiamento de projetos pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) demonstram um esforço concreto dos BRICS para diminuir sua dependência de instituições financeiras ocidentais.

Riscos e impactos sobre os cidadãos

A criação de uma moeda única pelos BRICS pode trazer riscos significativos, tanto para a economia global quanto para os cidadãos dos países membros. Um dos principais desafios é a falta de coesão política entre os países do bloco, que possuem sistemas econômicos, governamentais e interesses geopolíticos distintos. Sem uma governança clara e transparente para gerir uma moeda comum, existe o perigo de instabilidade econômica e desconfiança nos mercados financeiros globais, afetando negativamente o crescimento e o bem-estar das populações.

Além disso, a implementação de uma moeda única ou de sistemas financeiros alternativos pode aumentar a capacidade de controle dos governos sobre as transações financeiras de seus cidadãos. Ao centralizar os sistemas de pagamento em plataformas controladas pelo Estado, há o risco de vigilância excessiva e restrição de liberdades econômicas individuais. Isso pode incluir maior rastreamento de gastos, limites em transações e potencial discriminação financeira contra dissidentes ou grupos minoritários. Em países com regimes totalitários, como China e Rússia, por exemplo, essa centralização pode reforçar mecanismos autoritários, impactando diretamente os direitos e a privacidade dos cidadãos.

A proposta de uma moeda única pelos BRICS representa uma tentativa ambiciosa de reequilibrar o poder econômico global, mas envolve muitos riscos. Embora a ideia de reduzir a dependência do dólar possa trazer benefícios estratégicos, ela também levanta preocupações sobre a estabilidade econômica do bloco e os impactos na vida dos cidadãos. A centralização de sistemas financeiros pode abrir margem para maior controle estatal, reduzindo a privacidade e a liberdade econômica das pessoas, especialmente em regimes menos democráticos. Diante desses desafios, o sucesso dessa iniciativa dependerá não apenas de alinhamentos políticos e econômicos entre os membros do BRICS, mas também da garantia de que os direitos e interesses das populações sejam preservados. Além disso, a forte oposição dos Estados Unidos e os desafios internos do bloco mostram que esse é um projeto de longo prazo, cujo impacto dependerá de avanços na cooperação entre os países membros e de um cenário geopolítico favorável.


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