Segundo pesquisadores da Unicamp, o teste pode revolucionar a abordagem da prevenção do câncer cervical no Brasil
William Oliveira Publicado em 19/12/2024, às 11h09
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizaram um estudo inovador que sugere o uso de um teste de DNA para a detecção do Papilomavírus Humano (HPV), substituindo o tradicional exame de papanicolau. Esta pesquisa, publicada em setembro na revista científica Scientific Reports, pode revolucionar a abordagem da prevenção do câncer cervical no Brasil.
A metodologia do teste de DNA é similar à do papanicolau, envolvendo a coleta de uma amostra de secreção durante um exame ginecológico. O coordenador da pesquisa, Dr. Júlio Cesar Teixeira, destaca que "a cobertura da população-alvo do programa aumentou de 30% para mais de 90%". Este aumento significativo levou a uma detecção quatro vezes maior de lesões pré-coces, com casos diagnosticados em fase microscópica subindo de 10% para 66%, o que é crucial para tratamentos eficazes e acessíveis.
O estudo envolveu 20.551 mulheres, com idades entre 25 e 64 anos, e analisou os dados dos primeiros cinco anos do rastreamento do HPV via teste de DNA, comparando-os com informações obtidas nos cinco anos anteriores, quando apenas o papanicolau era utilizado. Todas as avaliações ocorreram no sistema público de saúde da cidade de Indaiatuba, em São Paulo, escolhida por seu sistema de saúde informatizado que facilitou o monitoramento e a ampliação da cobertura.
Os resultados desse projeto estão sendo acompanhados pelo Ministério da Saúde e já servem como referência para mudanças nas políticas públicas relacionadas à prevenção do câncer cervical. Em março de 2024, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) aprovou a implementação do teste de genotipagem do HPV no Sistema Único de Saúde (SUS), com a expectativa de que o método esteja disponível em 2025.
O Dr. Teixeira acredita que a adoção deste projeto em nível nacional poderá reduzir consideravelmente as mortes causadas pela doença. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2021, os óbitos por câncer do colo do útero representaram 6,05% das mortes femininas por câncer no Brasil.
Diferente do papanicolau, que depende da interpretação humana e pode resultar em falsos negativos ou positivos, o teste de DNA é automatizado e consegue identificar os tipos específicos de HPV presentes no organismo — dos mais de 200 tipos conhecidos, pelo menos 12 são considerados oncogênicos. O método tradicional apenas identifica células já afetadas pela doença.
No estudo, 87% dos exames realizados retornaram resultados negativos, indicando ausência de infecção e permitindo a repetição do teste após cinco anos — um intervalo maior que o necessário no caso do papanicolau, que requer novos exames após três anos em casos com dois resultados consecutivos negativos. Além disso, a média etária das mulheres diagnosticadas com lesões foi reduzida em dez anos, antecipando assim o diagnóstico.
A genotipagem para HPV não é uma prática nova; desde 2013, a Organização Mundial da Saúde (OMS) defende sua adoção em detrimento de métodos como o papanicolau e a inspeção visual com ácido acético (VIA). Países como os Estados Unidos já incorporaram essa testagem como padrão.
A ginecologista Renata Lamego, do Hospital Israelita Albert Einstein, observa que "no sistema suplementar brasileiro, o teste DNA-HPV já é utilizado", mas ressalta que sua introdução nas políticas públicas enfrenta desafios devido ao custo mais elevado em comparação ao papanicolau, que é um exame mais acessível e culturalmente enraizado entre as mulheres brasileiras.
O estudo também analisou a viabilidade financeira da implementação do teste. Apesar dos custos iniciais elevados, acredita-se que, em longo prazo, ele possa ser mais econômico ao sistema de saúde devido à sua capacidade de realizar diagnósticos precoces. O tratamento precoce é vital para evitar complicações avançadas que demandam terapias dispendiosas e nem sempre disponíveis.
O Dr. Teixeira conclui que, associando este novo método com programas organizados de vacinação contra o HPV em meninas abaixo dos 15 anos, há potencial para eliminar o câncer cervical no futuro próximo.