Superbactérias: entenda como uso excessivo de antibióticos ameaça a saúde e a medicina moderna

Pesquisa da SBI e do Instituto Qualisa de Gestão aponta uso inadequado de antibióticos em hospitais públicos e privados e alerta para o crescimento da resistência antimicrobiana

Cada dose equivocada de antibiótico fortalece as bactérias resistentes - Imagem: Reprodução

Lívia Gennari Publicado em 26/08/2025, às 18h00

Atualmente, o Brasil enfrenta uma crise silenciosa que ameaça desde tratamentos médicos básicos até a economia do país: trata-se da Resistência Antimicrobiana (RAM). O uso descontrolado de antibióticos e antifúngicos está favorecendo o surgimento de superbactérias, causando graves consequências para a saúde da população, o meio ambiente e a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

O tema ganhou ainda mais relevância com a divulgação de uma pesquisa realizada pela Vértea Pesquisas, apresentada por Mara Machado, CEO do Instituto Qualisa de Gestão (IQG), durante o lançamento da campanha “Será que precisa? Evitando a resistência antimicrobiana por antibióticos e antifúngicos”, promovida pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

No total, 300 hospitais foram contatados, mas apenas 104 responderam à pesquisa, sendo 60% privados e 40% públicos.

Imagem: Junior Rosa

Dados impactantes

O estudo mostrou que, mesmo após três décadas de programas, normas e recomendações, os padrões de prescrição e uso de antimicrobianos no Brasil permanecem praticamente inalterados:

Especialistas alertam que, se o cenário não mudar, em menos de 10 anos os antibióticos de primeira linha podem perder totalmente a eficácia.

Impacto global e nacional

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência antimicrobiana já é considerada uma “crise silenciosa” em andamento. Estimativas internacionais apontam que até 10 milhões de pessoas podem morrer por ano até 2050 em decorrência da RAM.

Um estudo publicado na revista The Lancet em 2022 revelou que as infecções resistentes já causam 1,27 milhão de mortes diretas por ano, número superior ao de óbitos por Aids ou malária no mesmo período.

O custo global dessa crise pode chegar a US$ 100 trilhões até 2050.

Estamos tratando de uma causa invisível”, afirmou Mara Machado
Mara Machado, CEO do IQG, durante apresentação da pesquisa
Imagem: Junior Rosa

Responsabilidade médica e hospitalar

Segundo dados da pesquisa, uma das razões para o avanço da resistência antimicrobiana está na diferença de atuação entre infectologistas e demais médicos. Enquanto especialistas em infectologia atuam de forma preventiva e sistêmica, médicos de outras áreas muitas vezes prescrevem antibióticos de forma imediata e individualizada, sem respaldo microbiológico.

Precisamos capacitar os profissionais médicos para melhorar esta crise”.

A infectologista Ana Gales, coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da SBI, destacou que o uso empírico e sem evidências pode agravar o problema:

“As infecções causadas por bactérias resistentes são as mais difíceis de tratar, e prolongam o curso da doença, aumentando os custos, já que elevam o tempo de internação”.
A infectologista Dra. Ana Gales em coletiva de imprensa
Imagem: Junior Rosa

Para o cardiologista e intensivista Anis Ghattás Mitri Filho, há ainda uma questão cultural que precisa ser enfrentada.

O paciente não nasceu sabendo usar antibiótico. Muitas vezes ele cobra a prescrição por acreditar que é a única solução, quando na verdade pode estar agravando o risco”, afirmou.
O cardiologista Anis Ghattás em coletiva de imprensa
Imagem: Junior Rosa

Reflexo no meio ambiente

Outro ponto preocupante é o impacto ambiental: não há protocolos de descarte seguro de antibióticos nem análises regulares de efluentes hospitalares.

Estudos já identificaram resíduos desses medicamentos em rios brasileiros, inclusive na água tratada, o que indica que microrganismos resistentes estão se disseminando também fora do ambiente hospitalar, o que acende um alerta para autoridades sanitárias e ambientais.

O que precisa ser feito?

Os especialistas defendem medidas urgentes, tais como:

O papel da população

Além dos hospitais e governos, a população também precisa colaborar. A automedicação e a troca informal de antibióticos entre familiares e vizinhos continuam sendo práticas comuns no Brasil. Entretanto, tais práticas representam um sério risco à saúde.

Quem nunca ouviu um amigo, vizinho ou até mesmo um parente dizer: “Estou com dor de garganta, vou tomar um antibiótico pra melhorar”? Ou até mesmo quando algum familiar alega estar com a "sinusite atacada" e se automedica com algum antibiótico.

Esse hábito é perigoso porque, na maioria das vezes, dores de garganta e sinusites são causadas por vírus, e antibióticos não funcionam contra eles. Nessas situações, o medicamento não traz melhora e ainda aumenta o risco de resistência das bactérias.

Somente em casos de infecções bacterianas - como acontece na faringite estreptocócica, por exemplo - é que o uso do antibiótico é realmente necessário. No caso da sinusite, a maioria das crises também tem origem viral, como um resfriado comum. Apenas uma pequena parte pode evoluir para uma infecção bacteriana. Contudo, em qualquer situação, seja uma infecção viral ou bacteriana, somente uma avaliação médica pode indicar o tratamento adequado.

Portanto, siga a orientação dos especialistas: não se automedique nem compartilhe informações sem orientação médica. A automedicação e o uso incorreto de antibióticos favorece a resistência antimicrobiana, tornando os medicamentos ineficazes quando realmente forem necessários.

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