Pesquisadores mapearam 453 fragmentos de proteínas do parasita reconhecidos pelo sistema imune, abrindo caminho para um imunizante capaz de proteger contra diferentes espécies e fases da doença
Letícia Sales Publicado em 02/07/2026, às 11h31
Cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deram um passo importante rumo a uma vacina mais completa contra a malária. A equipe identificou um conjunto inédito de fragmentos de proteínas do parasita Plasmodium que pode viabilizar o desenvolvimento de um imunizante capaz de proteger contra diferentes espécies do parasita e atuar em várias fases da infecção. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (1º) na revista Nature.
A pesquisa adotou uma abordagem pouco explorada até então: em vez de se concentrar apenas na produção de anticorpos, estratégia mais comum nas vacinas atuais, os cientistas investigaram o papel dos linfócitos T CD8+, células de defesa capazes de reconhecer e destruir diretamente as células infectadas.
"Há mais de 50 anos se busca desenvolver uma vacina contra a malária e, só recentemente, tivemos aprovados imunizantes com eficácia limitada, voltados principalmente para o P. falciparum e para crianças. Um dos principais desafios sempre foi encontrar bons alvos vacinais", explica a pesquisadora Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas, que coordenou o estudo.
Segundo ela, o diferencial do trabalho foi demonstrar que os linfócitos T CD8+ também têm papel central no combate ao parasita, além de identificar quais proteínas dele são reconhecidas pelo sistema imunológico.
Como foi feita a descoberta
A investigação seguiu etapas sucessivas. Primeiro, os pesquisadores identificaram os peptídeos — pequenos fragmentos de proteínas do parasita que aparecem na superfície das células infectadas e são reconhecidos pelos linfócitos T CD8+. Ao todo, foram mapeados 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do Plasmodium.
Na sequência, o grupo rastreou a origem desses fragmentos e constatou que a maioria vinha de proteínas chamadas housekeeping, responsáveis por funções básicas e essenciais à sobrevivência do parasita.
"Essas proteínas são necessárias em todos os estágios do ciclo de vida do parasita e altamente conservadas entre diferentes espécies. Isso as torna alvos muito interessantes para uma vacina universal", afirma Caroline. Na prática, isso significa que uma vacina baseada nesses alvos teria mais chances de funcionar amplamente, atingindo o parasita em diferentes momentos da infecção e em suas variantes.
Resposta imune confirmada em cinco espécies
Na etapa seguinte, a equipe testou se os peptídeos eram de fato combatidos pelo sistema imunológico. Os resultados mostraram reação das células de pacientes infectados tanto por P. vivax quanto por P. falciparum. A resposta também foi observada em outras três espécies de Plasmodium, incluindo as que infectam primatas e camundongos.
"Confirmamos a resposta imunológica em cinco espécies diferentes e em múltiplos hospedeiros, incluindo humanos naturalmente infectados, humanos submetidos à infecção experimental e modelos animais, tanto em camundongos quanto em primatas", afirmou Caroline.
Os testes, realizados em amostras humanas e em modelos experimentais, mostraram que os antígenos induziram resposta de células T em primatas e camundongos, inclusive em órgãos-chave como o fígado — onde ocorre a etapa inicial da infecção — e no sangue. Em alguns modelos animais, os alvos chegaram a demonstrar efeito protetor, reduzindo a carga do parasita.
"Não é só reconhecimento: vimos indícios de proteção, o que é fundamental para o desenvolvimento de uma vacina", afirma a pesquisadora.
Um caminho diferente das vacinas atuais
As vacinas disponíveis hoje contra a malária têm eficácia parcial, são direcionadas principalmente ao P. falciparum e atuam apenas na fase inicial da infecção, com proteção que tende a diminuir ao longo do tempo. O novo estudo aponta para um caminho distinto: um imunizante capaz de agir em múltiplos estágios do parasita, tanto no fígado quanto no sangue, e eficaz contra diferentes espécies.
"Hoje, as vacinas não cobrem completamente todas as fases da infecção. Nosso trabalho mostra que esses antígenos estão presentes em vários momentos, o que atende a uma demanda importante da Organização Mundial da Saúde", explicou Caroline.
Apesar do avanço, ainda há um longo caminho até o desenvolvimento de um imunizante pronto para uso. Os achados precisam passar por novas etapas de validação e testes clínicos.
"Nosso objetivo foi mostrar que existem caminhos diferentes e promissores. Agora, outros grupos podem explorar esses alvos e avançar no desenvolvimento de uma vacina realmente eficaz contra a malária", concluiu a pesquisadora.