Resiliência cerebral

Estudo revela por que alguns cérebros resistem ao Alzheimer mesmo com lesões típicas da doença

Pesquisa identifica proteína que pode funcionar como escudo cognitivo em idosos assintomáticos

Cientistas buscam entender os mecanismos de proteção do cérebro humano contra o Alzheimer - Imagem: Reprodução/Robina Weermeijer/Unplash

Letícia Sales Publicado em 24/04/2026, às 09h42

Cerca de um quarto dos idosos carrega no cérebro as placas e emaranhados que definem o Alzheimer. Mas não perde a memória. Não confunde nomes. Não se perde no caminho de casa.

O fenômeno, batizado de Alzheimer assintomático, intriga cientistas há anos. Agora, um estudo publicado em 4 de abril na Acta Neuropathologica Communications começa a desvendar esse mistério biológico.

A pesquisa, que combinou análise de tecidos humanos com experimentos em camundongos geneticamente modificados, aponta um possível protagonista: a proteína Chromogranin A (CgA).

Compreender por que alguns cérebros resistem pode ser tão importante quanto estudar a progressão do Alzheimer sintomático", afirmam os autores no artigo.

A equipe usou ferramentas computacionais para vasculhar bancos de dados de expressão gênica. O objetivo era distinguir, em nível molecular, três grupos: envelhecimento normal, Alzheimer com sintomas e Alzheimer silencioso.

Os achados foram então testados em animais. Camundongos sem a proteína CgA apresentaram um quadro surpreendente. Mesmo com alterações neuropatológicas compatíveis com Alzheimer, mantiveram desempenho preservado em testes de memória e aprendizado.

Nas fêmeas, o efeito foi ainda mais pronunciado. Houve redução da agregação da proteína tau — uma das marcas clássicas da doença — e preservação das sinapses, estruturas essenciais para a comunicação entre neurônios.

Segundo o estudo, entre 20% e 30% das pessoas idosas podem acumular placas beta-amiloide e tau sem sofrer impacto evidente sobre memória, linguagem ou raciocínio.

Os pesquisadores alertam: não há cura imediata nem mudança nos tratamentos atuais. Mas a descoberta abre uma nova frente de investigação.

Se confirmada em estudos futuros, a via da CgA pode levar a medicamentos que não apenas combatam as lesões do Alzheimer, mas fortaleçam os mecanismos naturais de resistência do cérebro.

Por enquanto, a ciência aprende uma lição silenciosa: o cérebro humano guarda recursos de proteção que ainda mal começamos a entender.

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