A Conitec decidiu barrar a inclusão de medicamentos como Wegovy e Saxenda, usados no tratamento da obesidade, citando o alto custo das terapias como principal justificativa
William Oliveira Publicado em 22/08/2025, às 13h01
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) emitiu um parecer desfavorável à inclusão dos medicamentos semaglutida e liraglutida no SUS, citando o alto custo como principal fator para a decisão.
O papel da Conitec é avaliar novos tratamentos, analisando evidências científicas, consultando especialistas e realizando consultas públicas para determinar se um medicamento deve ser incorporado ao sistema público.
Na semana passada, a comissão analisou dois pedidos relevantes: o uso da semaglutida (marca Wegovy), para tratar obesidade em pacientes com grau II e III acima de 45 anos e com doenças cardiovasculares, e da liraglutida (marca Saxenda), indicada para obesidade em pacientes com diabetes tipo 2. Ambos os medicamentos têm aprovação no Brasil e custam cerca de R$ 1.000 por caneta aplicadora.
Durante as deliberações, a Conitec destacou o impacto orçamentário, estimando que a incorporação desses fármacos poderia custar até R$ 4,1 bilhões em cinco anos, chegando a R$ 6 bilhões em casos de tratamento prolongado. Além disso, a necessidade de uso contínuo aumentaria ainda mais a pressão sobre o orçamento do SUS. A comissão também lembrou que a cirurgia bariátrica já é uma alternativa disponível na rede pública.
Assim, semaglutida e liraglutida permanecerão restritas à rede privada de saúde.
Produção nacional de canetas
A decisão da Conitec veio duas semanas após o Ministério da Saúde anunciar parceria com a Fiocruz e a farmacêutica EMS para produzir canetas nacionais contendo liraglutida e semaglutida. O produto da EMS, chamado Olire, é indicado para obesidade e diabetes e funciona de forma semelhante ao Ozempic e Wegovy.
O Ministério enfatizou que a decisão considera evidências de eficácia, segurança e custo-efetividade, estimando que o impacto financeiro anual seria de cerca de R$ 8 bilhões. O governo também destacou a importância de incentivar medicamentos genéricos para reduzir preços e ampliar o acesso à população.
Reação da ABESO
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) criticou a decisão. Em entrevista ao g1, a endocrinologista Maria Fernanda Barca, da USP, alertou que a medida restringe o acesso de pessoas com menos recursos a tratamentos eficazes contra obesidade e diabetes, doenças que podem causar complicações graves, como problemas cardiovasculares e AVCs.
Segundo ela, medicamentos como liraglutida e semaglutida trazem benefícios além do controle de peso, como redução de inflamação e efeitos positivos em gordura hepática. Ela também apontou que alternativas acessíveis no SUS são limitadas ou contraindicadas para pacientes com problemas cardiovasculares.
Posição da Novo Nordisk
A farmacêutica Novo Nordisk compreendeu as limitações orçamentárias do SUS e reiterou que os medicamentos são seguros, eficazes e custo-efetivos. A empresa solicitou apenas a incorporação do Wegovy, sem incluir o Ozempic.