Lula e Trump colecionam agressões difíceis de contornar

Lula e Trump, líderes de destaque mundial - Imagem: Reprodução

Reinaldo Polito Publicado em 28/09/2025, às 08h00

Não precisamos ir longe para relembrar os embates entre Lula e Trump. Vamos a novembro de 2024, às vésperas das eleições americanas. Ao declarar que torcia pela vitória de Kamala Harris, o presidente brasileiro aproveitou para alfinetar o então candidato republicano:

"Nós vimos o que o presidente Trump fez no final do mandato, fazendo aquele ataque contra o Capitólio, uma coisa impensável de acontecer nos Estados Unidos, que se apresentava ao mundo como modelo de democracia. [...] É o nazismo e o fascismo voltando a funcionar com outra cara."

A imprensa calculou mal

Possivelmente induzido pela imprensa progressista, Lula não imaginava que Trump venceria as eleições. Praticamente toda a mídia, em sua maioria inclinada à esquerda, indicava que Kamala continuaria na Casa Branca. As pesquisas apontavam a democrata como favorita. Erraram.

Talvez tenha sido um erro diplomático grosseiro de Lula, já que os Estados Unidos são a maior potência do mundo e nosso segundo parceiro comercial. Como dizia Jânio Quadros: "entre países não há amizade, mas sim conveniências". Gostando ou não do mandatário americano, precisaria engolir sapos e pensar nos benefícios que um bom relacionamento poderia trazer ao Brasil.

A taxa de 10%

Em abril, depois de os Estados Unidos aplicarem tarifa de 10% a vários países, entre eles o Brasil, Lula se revoltou:

"Somos um país que não tolera ameaça à democracia, que não abre mão da soberania, que não bate continência para nenhuma bandeira que não seja a verde e amarela, que fala de igual para igual e que respeita todos os países, dos mais pobres aos mais ricos, mas que exige reciprocidade no tratamento."

A taxa de 50%

Mal sabia ele que, em julho, a tarifa subiria para 50%. Lula reagiu ainda mais indignado e criticou o presidente americano: "Não podemos deixar o presidente Trump esquecer que ele foi eleito para governar os EUA. Ele não foi eleito para ser o imperador do mundo."

Mesmo tendo dito que "Lula pode conversar comigo quando quiser", a verdade é que a Casa Branca não abria as portas para negociar, chegando a rechaçar a embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. Lula não quis correr o risco de se humilhar. Em entrevista à Reuters, deixou clara sua decisão:

"Pode ter certeza de uma coisa: no dia em que minha intuição me disser que Trump está disposto a conversar, não terei dúvida de ligar para ele. Mas minha intuição diz que ele não quer conversar. E eu não vou me humilhar."

A carta de Trump

Foi também em julho que Trump enviou carta a Lula condicionando qualquer tratativa ao fim do julgamento de Bolsonaro, à liberdade de expressão e à livre atuação das Big Techs. Lula considerou essas exigências uma interferência na soberania brasileira, afirmando que o Brasil é um país soberano com instituições independentes e que não aceitará ser tutelado por ninguém.

Essa troca de farpas escalava sem previsão de conversas conciliatórias. Tanto que Lula foi à Assembleia Geral da ONU com a língua afiada, criticando ações americanas. Quando todos esperavam que Trump reagisse no mesmo tom, depois de palavras duras contra o Brasil, ele mudou de abordagem:

"Tivemos uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na semana que vem, se isso for do interesse dele. Mas ele parece um cara muito legal. Ele gosta de mim e eu gostei dele. E eu só faço negócio com gente de quem gosto. Quando não gosto, não faço. Por 39 segundos, tivemos uma ótima química, e isso é bom sinal."

Lula está desconfiado

Por que será que Lula não topou visitar Trump depois dessas mesuras? O presidente americano tem fama de tratar bem determinados líderes e depois ridicularizá-los com gestos desrespeitosos. Esse é um grande risco. Mas, para quem está com pires na mão, qualquer aceno é bem-vindo.

O problema é que, enquanto sorria para Lula, Trump impunha sanções com a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, sua esposa Viviani e o Instituto Lex, pertencente à família. A chamada "pena de morte financeira" congela bens e bloqueia transações. Difícil imaginar algo mais pesado.

A saída costurada pela diplomacia de ambos os países é que o encontro poderia ocorrer em território neutro, sendo Itália ou Malásia as hipóteses ventiladas, já que Lula estará nesses países nas próximas semanas. Como será essa conversa ninguém sabe. Se Trump insistir na liberdade de Bolsonaro e na livre atuação das Big Techs, talvez tudo continue do jeito que está. Infelizmente para o Brasil.

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