Recursos destinados à produtora associada ao filme Dark Horse ficaram retidos após auditoria apontar falhas na rastreabilidade do dinheiro público.
Redação Publicado em 18/05/2026, às 09h27
A ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) destinou R$ 2 milhões em emenda parlamentar para a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade ligada à produtora do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O repasse, porém, acabou bloqueado após o Tribunal de Contas da União (TCU) identificar possíveis irregularidades no trajeto do dinheiro público.
Segundo informações reveladas nesta segunda-feira (18), o valor seria utilizado para financiar a série documental Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rendem, uma produção de viés conservador voltada à releitura de personagens históricos brasileiros.
O projeto previa episódios sobre temas como Dom Pedro I, José de Anchieta e a influência portuguesa no Brasil. Além da série, parte dos recursos também seria destinada à produção de um espetáculo musical, ainda sem detalhes divulgados.
A verba foi enviada ao governo de São Paulo em julho de 2024, mas acabou incorporada ao caixa geral do Tesouro estadual, tornando-se temporariamente sem rastreabilidade individualizada — prática apontada como incompatível com regras da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que exigem contas específicas para cada emenda parlamentar.
Após auditoria do TCU, os recursos retornaram à origem e não chegaram a ser recebidos pela Academia Nacional de Cultura.
Além de Zambelli, outros parlamentares bolsonaristas também destinaram recursos ao projeto. O deputado Marcos Pollon (PL-MS) enviou R$ 1 milhão via emenda Pix. Já Alexandre Ramagem contribuiu com R$ 500 mil e Bia Kicis repassou R$ 150 mil.
A ANC é presidida por Karina Ferreira da Gama, empresária que também aparece como responsável por outras empresas investigadas em apuração conduzida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino.
As investigações ganharam força após denúncias envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro. O caso explodiu após a divulgação de conversas atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nas quais ele pediria apoio financeiro ao empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.
Segundo as investigações preliminares, o projeto cinematográfico teria previsão de investimento de até R$ 134 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões já teriam sido efetivamente pagos.
O STF apura agora se houve quebra de transparência, possível desvio de finalidade e dificuldades de rastreamento na utilização de emendas parlamentares destinadas às entidades ligadas à produção audiovisual.
Também estão no centro da investigação empresas vinculadas à mesma estrutura empresarial e registradas no mesmo endereço da ANC, o que, segundo a denúncia apresentada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP), poderia dificultar a fiscalização dos recursos públicos.
O deputado Mario Frias (PL-SP), roteirista e ator do filme, também é alvo de pedidos de esclarecimento feitos pelo Supremo Tribunal Federal.
Até o momento, Carla Zambelli e os demais parlamentares citados não se manifestaram oficialmente sobre o caso.