Ordem do ministro determina custódia das provas no STF, gera críticas de investigadores e provoca reação de senadores da oposição
Lívia Gennari Publicado em 14/01/2026, às 20h03
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli ordenou que todos os bens e materiais apreendidos na mais recente fase da Operação Compliance Zero sejam encaminhados diretamente à sede da Corte, onde deverão permanecer lacrados e sob custódia até nova deliberação. A investigação envolve o Banco Master e figuras ligadas à instituição financeira.
A decisão, formalizada em despacho judicial, estabelece que os itens recolhidos pela Polícia Federal não sigam o fluxo tradicional de perícia no próprio órgão, passando a ficar sob custódia do STF. Segundo Toffoli, a medida visa assegurar a preservação das provas até que seja definida a forma de análise do material.
Ministro aponta falhas da PF e surpreende peritos
A determinação causou surpresa entre investigadores. Em operações desse nível, o procedimento padrão é que celulares, computadores e documentos sejam enviados à perícia da Polícia Federal para extração de dados, análise técnica e preservação da cadeia de custódia. Técnicos da área avaliam que a demora nesse processo pode acarretar riscos à integridade das informações, especialmente no caso de dados digitais.
No mesmo despacho, o ministro fez críticas duras à atuação da Polícia Federal. Toffoli apontou “inércia” e “falta de empenho” no cumprimento da ordem judicial que autorizou a operação, além de mencionar prejuízos às investigações. A autorização foi concedida no dia 7 de janeiro, um dia após o pedido formal da PF, mas a ação não foi executada dentro do prazo inicialmente previsto.
A operação acabou sendo deflagrada após investigadores identificarem que Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tinha passagem comprada para Dubai. O empresário foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos momentos antes do embarque.
Além da prisão, o ministro determinou que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresente explicações formais, também em 24 horas, sobre o descumprimento do prazo judicial.
Após a repercussão da decisão, o gabinete de Dias Toffoli divulgou nota afirmando que o acautelamento das provas tem como objetivo exclusivo a preservação do material apreendido, que posteriormente será submetido à perícia pelos órgãos competentes. Em um segundo comunicado, publicado no início da noite, o gabinete detalhou as condições de guarda dos itens enquanto estiverem sob custódia fora das dependências do Supremo.
Decisão de Toffoli desencadeia crise no STF
A condução do caso ganhou um novo capítulo no Congresso Nacional. Na tarde desta quarta-feira (14), senadores da oposição protocolaram um pedido de impeachment contra Dias Toffoli, questionando sua atuação no processo relacionado ao Banco Master e apontando supostas irregularidades na forma como o ministro conduziu as decisões da investigação.
Na petição, os parlamentares sustentam que o ministro teria violado princípios como moralidade e impessoalidade ao adotar medidas consideradas atípicas e alinhadas à estratégia da defesa. Entre os pontos citados estão a retirada da investigação da primeira instância, a decretação de sigilo, a restrição ao compartilhamento de dados com a CPMI do INSS e a determinação de uma acareação entre um diretor do Banco Central e o ex-controlador da instituição financeira.
O documento é assinado pelos senadores Magno Malta, Eduardo Girão e Damares Alves. Eles afirmam que haveria uma “associação extraprocessual” entre o magistrado e integrante da defesa, o que, segundo a petição, comprometeria a imparcialidade do relator. Os parlamentares também destacam que a posterior revogação de algumas dessas decisões não afastaria, na visão deles, a suposta irregularidade, mas reforçaria a ausência de amparo legal dos atos iniciais
O pedido de impeachment menciona expressamente a decisão que determinou a custódia das provas no STF, classificando a medida como excepcional e fora dos procedimentos consolidados do direito processual penal. Para os senadores, o fato de o próprio ministro ter concentrado a condução das investigações e imposto sigilo rigoroso ao caso agrava a situação.
Até o momento, o Supremo Tribunal Federal não se manifestou oficialmente sobre o pedido protocolado no Senado.