Ex-presidente mudou tom com Moraes e tentou se desvincular dos atos de 8 de janeiro
Manoela Cardozo Publicado em 11/06/2025, às 20h01
Jair Bolsonaro foi interrogado na última terça-feira (10) pelo ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF), no processo em que é réu por tentativa de golpe de Estado. Pela primeira vez desde o fim de seu mandato, o ex-presidente ficou frente a frente com Moraes, um de seus principais antagonistas ao longo dos últimos anos. Durante o depoimento, transmitido pela TV Justiça, Bolsonaro negou ter arquitetado qualquer plano para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente em 2022.
Em um tom muito mais moderado do que o habitual, o ex-presidente chegou a pedir desculpas a Moraes por insinuações feitas anteriormente. "Só tenho uma coisa a afirmar a vossa excelência: de minha parte, por parte de comandantes militares, nunca se falou em golpe. Golpe é uma coisa abominável", afirmou. Ainda acrescentou: "O golpe até seria fácil começar, o after day [dia seguinte] é que é simplesmente imprevisível e danoso para todo mundo. O Brasil não poderia passar essa experiência dessas e não foi sequer cogitado essa hipótese de golpe no meu governo".
Bolsonaro também se distanciou dos ataques às sedes dos Três Poderes ocorridos em 8 de janeiro de 2023. "Eu fico até arrepiado quando se fala que o 8 de janeiro foi um golpe. Eram 1,5 mil pessoas, pobres coitados [...] cem ônibus, chegaram na região do setor militar urbano na madrugada de domingo e esse pessoal foi embora logo depois da baderna e sobrou para quem estava acampado aqui. Quem realmente fez foi embora. Agora, aquilo não é golpe", declarou.
Ainda durante a audiência, Bolsonaro afirmou que nunca incentivou a ruptura institucional. "Eu joguei dentro das quatro linhas [da Constituição] o tempo todo. Muitas vezes eu me revoltava, falava palavrão. Mas, no meu entender, fiz o que devia ser feito", defendeu-se.
Ele também se desvinculou de declarações anteriores, minimizando sua própria retórica. "A desconfiança [em relação às urnas] não começou comigo, começou com Brizola lá nos anos 90, depois passou pro Flávio Dino [aliado de Lula, desde 2024 ministro do STF]". Em seguida, afirmou: "Acredito que nós... os senhores, né, no caso? Eu sou carta fora do baralho... Têm que tomar uma providência pra restabelecer a confiança da população no sistema eleitoral nosso".
Sobre insinuações de que ministros do STF teriam recebido propina em dólares, Bolsonaro foi direto ao ser questionado por Moraes. "Quais eram os indícios que o senhor tinha de que nós estaríamos levando US$ 50 milhões, US$ 30 milhões?", perguntou o magistrado. Bolsonaro respondeu: "Não tenho indício nenhum, senhor ministro". E completou: "Então, me desculpe. Não tinha essa intenção de acusar de qualquer desvio de conduta dos senhores três".
Além de Bolsonaro, outros sete aliados também prestaram depoimento ao STF. Entre eles, o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, que pediu desculpas por ter declarado “guerra ao STF”, e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que recuou das críticas ao sistema de votação. Torres admitiu que não tinha provas para sustentar as alegações de fraude.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusa Bolsonaro de liderar uma organização criminosa que tentou abolir violentamente o Estado Democrático de Direito. A denúncia também o responsabiliza por danos ao patrimônio público durante os atos golpistas de janeiro. Apesar de ainda não haver data definida para o julgamento, a ação segue em fase avançada.